André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

O homem que inventou o sexo

Mostras no Rio e SP celebram Russ Meyer, o cineasta que maculou a América

Se você mora no Rio ou em Sâo Paulo, pare o que você está fazendo agora mesmo e corra para o CCBB. Se mora em outro lugar, compre a passagem e vá também. Não é todo dia que se pode assistir a 18 filmes de Russ Meyer de uma vez.

O Walt Disney do sexo, o Fellini do couro negro, o homem que criou o sonho molhado da América com suas deusas peitudas rebolando ao som do rock’n’roll imundo enquanto espancavam machos indefesos em estradas poeirentas, finalmente ganha por aqui uma retrospectiva à sua altura.

 

Caso raro de moralista ferrenho que emputecia os moralistas ferrenhos, Meyer levou para as telas suas taras e obsessões. E ajudou a criar uma iconografia do submundo americano que influenciou cineastas (Tarantino, Almodóvar), estilistas (Gaultier) e desenhistas (Crumb).

 

Por uma dessas grandes coincidências da vida, me correspondo há algum tempo com Jimmy McDonough, um senhor escritor e autor de uma biografia essencial de Neil Young, “Shakey”. Pois McDonough também escreveu “A” biografia de Meyer, “Big Bosoms and Square Jaws”.  E aceitou responder a algumas perguntas sobre o homem:

 

 Quando começou o seu interesse pelos filmes de Russ Meyer?

Frequentando drive-ins em Indiana quando jovem. Um adolescente revoltado e explodindo de hormônios – a vítima perfeita. Vi “Supervixens” e minha cabeça explodiu.

 

- Você acha que Russ Meyer tinha consciência de que seus filmes se tornariam tão famosos e cultuados?

Duvido. RM era movido por suas obsessões. Dinheiro, fama, as mulheres de verdade, tudo isso veio de brinde.  Russ era como uma criança. Ele só queria fazer o que ele queria fazer. E ele FEZ!

 

- Por que você acha que seus filmes se tornaram ícones da cultura pop americana?

- Porque os Estados Unidos simbolizavam um certo exagero grandioso. Especialmente no auge de RM.  Carros como o Cadillac Eldorado Biarritz, de 1959, que era um brilhante monstro de aço curvo e barbatanas exageradas. Meyer descobriu mulheres que eram o equivalente a esses carros, e criou para elas um altar cinematográfico. Usou também um estilo visual chocante e atraente, chupado de histórias em quadrinhos, que nocauteavam o espectador antes que ele pudesse ver de onde vinha o soco.  Se eu morasse num país do Terceiro Mundo e desse de cara com “Supervixens”, provavelmente nadaria pelo Amazonas e daria um jeito de chegar até os Estados Unidos só para conhecer essas mulheres. Infelizmente, a América de Russ Meyer não existe. É só o sonho molhado de um homem. Ou será o seu pesadelo?

 

- Russ Meyer criou um estilo de cinema muito pessoal, especialmente na escolha de suas atrizes. Você acredita que suas decisões artísticas foram motivadas apenas por suas obsessões pessoais?

- Como RM costumava dizer, ele precisava ”sentir na virilha”. TUDO era pessoal para Russ. Ele babava e suava sobre cada fotograma de seus filmes. A sua maneira de possuir essas mulheres era prendê-las em celulóide. É por isso que suas visões eram tão intoxicantes. E tão infantis.

 

- Onde podemos ver a influência de Russ Meyer hoje (além de em “À Prova de Morte”, de Tarantino, claro!)?

- É só ver os clips de Lady Gaga. Nos “reality shows” também. Meyer foi o primeiro a explorar esse estilo de edição alucinado. Está em todos os lugares hoje. RM é parte de nosso estofo cultural hoje em dia.

 

- Em seu livro, você diz que a indústria pornô “passou por cima” de Russ Meyer. O que houve? Ele não conseguiu se adaptar aos novos tempos?

- RM estava interessado na fantasia, não na “realidade” de mostrar sexo. Ele não estava preparado para abrir mão da fantasia para documentar os mecanismos pegajosos da genitália, particularmente abaixo da linha de cintura. O sexo explícito fez os excessos de Meyer parecerem  velhos, até ingênuos. Russ Meyer sem fantasia é como “O Mágico de Oz” sem os macacos voadores. Veja um de seus últimos trabalhos, “Pandora Peaks”: o tesão desapareceu, mas a obsessão mamária continua. Mas é tudo que restou, e nesse ponto já se tornou grotesco.

 

- Se você tivesse de sugerir três filmes de Russ Meyer para quem não assistiu a nenhum, quais seriam?

- “Faster, Pussycat, Kill! Kill!”, “Beyond the Valley of the Dolls” e, só por perversão, “Mondo Topless”. Veja cinco minutes desse filme e você não esquecerá, embora deseje esquecer.

 

- Quais seus filmes prediletos de Russ Meyer?

- “Faster, Pussycat”, “Common Law Cabin” e “Good Morning... and Goodbye!”. Todos têm a pena venenosa do roteirista John Moran, o colaborador mais desprezado de Russ Meyer. Seus diálogos ácidos são o complemento perfeito para o assalto visual de agressão total de Russ Meyer. Também tenho um fraco por “Mondo Topless”, porque é puro RM, não diluído por coisas como história, significado ou NADA além de gremlins go-go sacudindo suas mamas na sua cara e te desafiando a chegar só... um... pouquinho... mais...perto! Loucura, eu digo! É loucura! Mas que jeito de dizer adeus!

 

- Quais são seus próximos projetos?

- Estou trabalhando num romance sobre as MINHAS próprias obsessões nojentas. E talvez um livro sobre um crime verdadeiro. Sou muito supersticioso para dizer mais.

Escrito por André Barcinski às 09h59

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O século de Adoniran

Dia 6 de agosto é aniversário de 100 anos de Adoniran Barbosa.

Tomara que todo mundo se anime e passe o dia, a semana, o mês e quem sabe o resto da vida ouvindo o sujeito.

Li que alguns discos-tributo foram lançados e diversos shows estão sendo programados. Muito legal. Sob risco de parecer um mala, tenho de dizer que NINGUÉM jamais cantou Adoniran como o próprio. Eu, pelo menos, não conheço ninguém que chegue perto.

Acho que ele e alguns outros gênios de sua geração, como Noel Rosa, Cartola e Nelson Cavaquinho, mesmo com suas vozes imperfeitas e castigadas pela birita, soam muito melhores do que qualquer crooner. Não consigo ouvir ninguém cantando Cartola, acho meloso e piegas. Já o próprio cantando, é transcendente. Noel, só aturo com Aracy de Almeida, que o conheceu e era apaixonada pelo mago da boca torta. Ou com o próprio Noel cantando, claro.

A mesma coisa acontece com Adoniran. A grande maioria das interpretações de outros cantores soa caricata, pelo menos aos meus ouvidos.

Não parece inacreditável que esses quatro monstros tenham nascido num intervalo de quatro anos?

Sobre Adoniran, não tem muito o que dizer. O negócio é ouvir. Poderíamos teorizar por anos sobre sua sobrenatural capacidade de síntese. Quantos compositores não dariam dois braços para escrever algo como "Deus dá o frio conforme o cobertor"?

Dizer muito com pouco. Exprimir séculos de cultura proletária imigrante em uma canção de dois minutos. O cara era o tal.

Escrito por André Barcinski às 14h28

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Quando Sam Peckinpah deu uma banana para Hollywood

Quando lançado, em 1974, “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, de Sam Peckinpah, provocou reações extremadas. Alguns o consideraram uma obra-prima. Outros o elegeram um dos piores filmes já feitos.

O cineasta japonês Takeshii Kitano diz que é seu filme predileto. O ator Tommy Lee Jones gostou tanto que o copiou descaradamente em “Três Enterros”, seu único longa como diretor. Quentin Tarantino, Martin Scorsese, Brian De Palma e John Woo são fãs. Quem somos nós para discordar?

“Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” está saindo em DVD no Brasil. É a chance de conferir e tirar suas próprias conclusões. Meu veredito? É daquelas experiências cinematográficas radicais que vão ficar na sua cabeça para sempre.

Mais que um filme, “Alfredo Garcia” é um grande “foda-se” de Sam Peckinpah para Hollywood.

Um ano antes, o diretor teve seu “Pat Garrett & Billy the Kid” (outro filmaço que está saindo em DVD por aqui) retalhado pelo estúdio em quase 20 minutos. Deprimido, ele se afundou na bebida.

Decidido a não trabalhar mais em Hollywood, Peckinpah foi para o México, contratou uma equipe local e filmou “Alfredo Garcia”.

Nas primeiras cenas, somos apresentados a um poderoso senhor de terras mexicano. Ele chama a filha, grávida, para uma conversa. Quer saber quem a engravidou. Diante da recusa, manda dois capangas espancarem a menina. Sua própria filha, grávida. Os jagunços sentam a mão na coitada. Ela confessa: foi Alfredo Garcia. O chefão põe um prêmio na cabeça do galã. Imediatamente, toda a escória do México e dos Estados Unidos parte atrás do tal Alfredo Garcia. E isso é só o começo do filme...

A estranheza do filme se dá logo nas primeiras imagens. De início, temos a impressão de que a história se passa em algum rincão do deserto mexicano no fim do século 19. As imagens são puro faroeste. Peckinpah corta então para a cena de um avião decolando. Estamos em 1970. A brutalidade, diz o diretor, não mudou nada nos últimos cem anos.

Só alguém que não tem nada a perder poderia fazer um filme tão delirantemente abjeto. Os cenários são bordéis infectos, cemitérios poeirentos e bares criminosos de beira de estrada. Os heróis são um músico cafetão (o glorioso Warren Oates, que merecia uma estátua) e sua namorada, uma puta (Isela Vega).

O casal parte atrás de Alfredo Garcia. No caminho, encontram motoqueiros estupradores, matadores de aluguel, pistoleiros bêbados e toda sorte de tipos suspeitos. Pessoas são enterradas vivas. Famílias são aniquiladas. O filme vira um pesadelo lisérgico pelos cantos mais horripilantes do México. Uma “bad trip” inesquecível.

Os bandidos de Peckinpah são iguaizinhos aos gângsteres dos filmes policiais da nossa Boca do Lixo. Quem já viu filmes de Chico Cavalcanti, Candeias ou Mojica vai reconhecer os tipos, de bandana e bigodes à Rivelino, com camisas abertas no peito, medalhões e sapatos bico fino, carregando velhos 38. É isso: em “Alfredo Garcia”, Sam Peckinpah trocou Hollywood pela Boca do Lixo. Palmas pra ele.

Escrito por André Barcinski às 00h06

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Dois discos novos (e um nem tanto...)

Tame Impala – “Innerspeaker”

Tame Impala vem da Austrália e faz um pop psicodélico viajandão com guitarras etéreas, vocais preguiçosos e um clima de fim-de-semana no campo. Música perfeita para dirigir em alguma estrada linda e longa. Mas aqui não tem só paz e amor: também tem punk de garagem sixties e camadas e mais camadas de guitarras formando uma parede densa de sons lisérgicos. Coisa do mal.

"Innerspeaker” é o primeiro disco deles, depois de um EP e alguns singles. Imagine o My Bloody Valentine tocando Pink Floyd fase Syd Barrett. Lindão.

 

Teenage Fanclub – “Shadows”

A gente já sabe a fórmula: primeiro entra aquele guitarrinha meio Byrds, depois aquela bateria de mão leve, nada de pancada, que aqui isso aqui é pras meninas dançarem, não pros barbudos se pegarem no mosh. Para terminar, vem o vocal meio sussurrado, seguido por um refrão que dá vontade de assobiar imediatamente. Chegou mais um disco do Teenage Fanclub.

Este, “Shadows”, é o décimo. Dez discos de power pop campeão. Dizer que o Teenage Fanclub bebe no Big Star é uma sacanagem. Os caras SÃO o Big Star. É simples? É. É a mesma coisa de sempre? É. Então por que ninguém faz melhor?

 

Kylesa – “Static Tensions”

OK, o disco é de 2009, eu sei. Mas descobri há pouco e não paro de ouvir há meses, então para mim é novo ainda. Kylesa já tem quase dez anos de estrada. São americanos da Geórgia (terra do Mastodon) e cometem o crossover de metal e punk que faz Korn e seus clones parecerem o Ricky Martin.

 “Static Tensions” é daqueles discos que parece um catálogo de riffs roubados de um monte de gente boa. Desconfio que os caras passaram MUITO tempo ouvindo Melvins e Sleep.  Além de Slayer, claro. Um disco para ouvir alto.

Escrito por André Barcinski às 21h31

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A voz "brasileira" de Cormac McCarthy

 

 

 

 

 

 

 

 

Há alguns dias, fiz um post sobre o escritor Cormac McCarthy e citei meu livro predileto dele, “Meridiano de Sangue”.

Fiquei muito feliz ao receber um comentário de Cássio de Arantes Leite, tradutor do livro. Pedi licença ao Cássio para reproduzir aqui seu e-mail:

“Uma boa surpresa ver alguém comentando ‘Meridiano de Sangue’, que passou quase em branco pelo jornalismo cultural brasileiro. Foi um livro memorável de traduzir, e a sensação de que ninguém leu é muito triste. O livro é difícil e desafia a interpretação, ao contrário de ‘A Estrada’, bem mais simples e com um viés alegórico mais óbvio. ‘Meridiano’ tem essa densidade literária absurda, revela um escritor de talento sobrenatural, e parece ser quase impenetrável para o leitor comum, talvez por isso a falta de discussão sobre o livro.”

Cássio tem razão, o livro é realmente denso. Quando li, no original, fiquei pensando como seria difícil transpor a escrita de McCarthy para o Português. Ele usa parágrafos longos, praticamente sem vírgulas, que fundem frases de uma maneira sobrenatural, só para usar uma expressão usada pelo Cássio.

Comprei a edição brasileira de “Meridiano de Sangue”. Abri numa página qualquer:

“Nesse primeiro minuto a carnificina se tornara generalizada. Mulheres gritavam e as crianças nuas e um velho avançou cambaleante agitando umas pantalonas brancas. Os cavaleiros moviam-se entre eles e os massacravam com porretes ou facas. Uma centena de cachorros presos a cordas uivava e outros corriam enlouquecidos entre as cabanas desferindo dentadas uns nos outros e nos cães amarrados e o tumulto e o clamor não cessavam nem diminuíam desde o primeiro momento em que os homens invadiram a aldeia. Já uma série de cabanas ardia em chamas e toda uma coluna de fugitivos começara a fluir para o norte ao longo da margem choramingando desvairadamente com os cavaleiros entre eles como vaqueiros munidos de clavas abatendo primeiro os retardatários”.

Parabéns ao Cássio, que encarou o desafio de traduzir 350 páginas de “Meridiano de Sangue” e sobreviveu.

Escrito por André Barcinski às 23h21

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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