“Millenium”: os crimes que vêm da Escandinávia

Estréia hoje “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, filme de David Fincher (“A Rede Social”, “Clube da Luta”) adaptado do romance policial do sueco Stieg Larsson.
O filme tem uma história envolvente e um clima meio dark, características do cinema de David Fincher. Caso raro de filme de ação moderno que não parece feito só para adolescentes.
Para você que viveu em Marte nos últimos anos, “Millenium” é uma trilogia de histórias policiais que vendeu cerca de 60 milhões de livros no mundo todo.
Li os três livros. “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” é o melhor. Nele, o jornalista Mikael Blomkvist investiga o sumiço de uma menina, ocorrido mais de 40 anos antes na mansão de uma família de industriais.
Ele recebe ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker de visual gótico e passado misterioso.
Os outros dois livros da série, “A Menina Que Brincava com Fogo” e “A Menina do Castelo de Ar”, são bem mais fracos. E isso porque Salander se transforma numa espécie de heroína com poderes quase sobrenaturais.
Em certo ponto da trama, ela se pega enfrentando um homem gigante e imune à dor, é baleada várias vezes e enterrada viva. Fora que seus poderes de hacker atingem proporções divinas. Com duas tecladas no computador, ela é capaz de mudar o rumo da humanidade.
Esse tipo de romance policial, com personagens pouco realistas e dotados de habilidades quase extraterrenas, é muito popular hoje.
Prefiro as histórias mais realistas, que relatam procedimentos policiais e investigações. Gosto de personagens de carne e osso. Gosto dos livros de Jim Thompson, Ed McBain, James Ellroy, George V. Hiiggins, Joseph Wambaugh, Richard Price.
O sucesso de “Millenium” ajudou a divulgar a literatura policial escandinava. Nomes como o norueguês Jo Nesbo viraram uma febre. Sem contar o veterano sueco Henning Mankell, autor das histórias do Inspetor Wallander.
Li dois livros de Nesbo. Achei ainda mais inverossímeis e exagerados que os de Larsson.
Um deles, “The Snowman”, tem um criminoso que parece vilão do Harry Potter. Ele chega a colocar uma de suas vítimas com uma corda no pescoço e sustentada em cima de um boneco de gelo que, à medida que derrete, vai enforcando o coitado.
Os livros de Nesbo, assim como os de Larsson, parecem ter sido pensados com o objetivo de vender a história para o cinema.
O curioso é que a literatura policial escandinava nem sempre foi assim. Além de ter uma história antiga e rica, foi marcada por autores que sabiam criar personagens e situações credíveis.
Nos anos 70, foram lançados no Brasil alguns livros do casal sueco Maj Sjöwall e Per Wahlöö, como os ótimos “Roseanna” e “Massacre em Estocolmo”. Se achar em algum sebo, pode comprar que valem a pena.
P.S.: Cada um tem o indie estatal que merece
A dica é do meu amigo Álvaro Pereira Jr.: domingo, às 14h do Brasil, a rádio BBC6 transmite o programa de Jarvis Cocker, do Pulp, em que ele entrevistará Leonard Cohen (ouça aqui).
Aliás, o disco novo de Cohen, “Old Ideas”, pode ser ouvido na íntegra, no site da NPR (National Public Radio), emissora pública norte-americana.
BBC e NPR: dois indies estatais que eu não me importaria de pagar imposto para sustentar.
Escrito por André Barcinski às 08h49
Bom dia, Aedes aegytpi; pode entrar que a casa é sua...

Poucas coisas me irritam tanto quanto hipocrisia. Especialmente hipocrisia estatal, aquela em que governo exige de nós atitudes que ele próprio não toma.
A Lei Seca, por exemplo: ninguém pode ser contra uma lei que diminui o número de acidentes de carro, certo?
Então por que o governo de São Paulo não faz a sua parte e estende o horário de funcionamento do metrô?
Que sentido faz ter uma cidade com uma vida noturna tão intensa e não ter metrô de madrugada? Será que os acidentes não cairiam se a população tivesse a opção de sair à noite de metrô?
O combate à dengue é outro exemplo de hipocrisia.
O Governo do Rio anunciou que vai multar donos de casas e terrenos onde forem encontrados focos do Aedes aegypti. Beleza.
Mas e os terrenos públicos que são criadouros de mosquito? Quem multa o governo?
Eu moro em Paraty, no Estado do Rio de Janeiro. Com as chuvas fortes que caem desde dezembro e as crateras que existem no bairro, a rua mais parece um charco. Tem tanta água que o lugar virou até bebedouro de cavalos.
No fim da tarde, começa uma revoada de mosquitos. São insetos de todos os tipos, cores e tamanhos. Alguns parecem uns pterodáctilos. Um verdadeiro espetáculo da natureza.
Minha rua não é asfaltada. E nem será num futuro próximo, por uma única razão: meu vizinho é inimigo político do prefeito.
Isso não é segredo por aqui. Da última vez que fui reclamar na Secretaria de Obras, um funcionário disse: “Ah, meu amigo, aquela rua tem um problema sério...”
Só para humilhar os moradores, a Prefeitura pavimentou as ruas do bairro. Mas o asfalto só chega até a esquina da nossa rua.
Além dos mosquitos, outros seres costumam visitar nosso bairro, embora com menos freqüência que os insetos: os fiscais da Vigilância de Saúde.
Eles vêm multar os moradores que deixam poças d’água em seus quintais (curiosamente, eles são capazes de achar qualquer pocinha no jardim de um morador, mas nunca perceberam o Mar Morto que existe em nossa rua).
Da última vez que estiveram por aqui, pedi a um dos fiscais para dar uma olhada no pântano e tentar achar algum Aedes aegypti. O sujeito me tranquilizou:
- Aqui não tem. O Aedes é fotofóbico e não prolifera em áreas ensolaradas.
- E os outros cinco milhões de mosquitos que vivem aqui?
- Ah, aí já não é da nossa alçada!
Escrito por André Barcinski às 08h58
Oscar: o fundo do poço?

Será essa a pior edição do Oscar?
A safra de filmes hollywoodianos de 2011 foi tão ruim que a Academia não conseguiu nem selecionar o máximo de dez candidatos para o prêmio de melhor filme.
Escolheram só nove, incluindo uma das coisas mais ridículas já perpetradas em celulóide, “Cavalo de Guerra”, e o dramalhão “Extremely Loud and Incredibly Close”, que foi malhado pela crítica.
O ano foi tão ruim que “Kung Fu Panda 2” foi indicado ao prêmio de melhor animação. Vou repetir bem devagar, pra ninguém achar que me enganei: Kung.. Fu.. Panda.. Parte dois... foi indicado... a um... Oscar. Um OSCAR, capisce?
Achei que nunca conseguiriam superar 1995, quando a disputa ficou entre “Coração Valente”, “Apollo 13”, “Babe, o Porquinho Atrapalhado”, “O Carteiro e o Poeta” e “Razão e Sensibilidade”.
Ou 1998, com “Shakespeare Apaixonado”, “A Vida é Bela”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Elizabeth” e “Além da Linha Vermelha”.
E que tal 2008, com “Quem Quer ser Um Milionário?”, “Milk – A Voz da Igualdade”, “Frost/Nixon”, “O Leitor” e “Benjamin Button”? De lascar.
Ainda não vi “O Artista” e “Hugo”, então não quero opinar sobre a safra 2011. Mas não estou lá muito otimista.
Para piorar, conseguiram esnobar Albert Brooks, que está fantástico no papel do mafioso em “Drive”, e Michael Fassbender, uma revelação como o viciado em sexo de “Shame”. E trouxeram de volta Billy Crystal para apresentar o prêmio. Socorro.
Não é de hoje que o cinema americano está em crise. Só faz continuações, filmes em 3D e adaptações de quadrinhos. Se o Oscar, que na teoria é o melhor de Hollywood, está nessa lama, imagine o cinema mais comercial?
Escrito por André Barcinski às 08h33
Dez filmes sobre pessoas erradas nos lugares errados
Estava zapeando a TV outro dia e achei o ótimo “Implacável Perseguição”, de Jonathan Mostow, um daqueles filmes sobre pessoas normais às voltas com situações extremas.
É um velho clichê do cinema de horror e suspense: um personagem civilizado e pacífico que precisa recorrer aos instintos mais primitivos e bestiais para enfrentar caipiras psicóticos, traficantes sádicos ou assassinos seriais.
Separei dez filmes do gênero. E não incluí nenhum de horror, tipo “Quadrilha de Sádicos” ou “O Massacre da Serra Elétrica”, porque seria chover no molhado. Afinal, quase todos os filmes de terror lidam com pessoas normais às voltas com a anormalidade, não?
Faca Na Água - Roman Polanski, 1962
Um casal viaja por uma estrada e dá carona para um homem misterioso. O casal convida o homem para velejar. Ele aceita. Partindo dessa trama simples, Polanski, em seu primeiro longa, cria um “thriller” minimalista, cheio de tensão sexual e violência implícita.
Pequeno Grande Homem (Little Big Man) - Arthur Penn, 1970
Difícil achar um filme americano dos anos 70 que não falasse, direta ou indiretamente, sobre o Vietnã. Nesse filme, um homem de 120 anos (Dustin Hoffman) conta a um historiador sobre sua vida, em especial os anos que passou como prisioneiro de uma tribo Cheyenne. Mais uma analogia sobre imperialismo, preconceito e o conflito de civilizações, tão típica do cinema americano daquela época.
Um Homem Chamado Cavalo (A Man Called Horse) – Elliott Silverstein, 1970
Um nobre britânico (Richard Harris) é capturado por uma tribo indígena e, pouco a pouco, deixa de lado os modos aristocráticos para se tornar um guerreiro da tribo. O filme foi visto, na época, como uma analogia à Guerra do Vietnã, e é um dos melhores papéis de Richard Harris no cinema.
Walkabout – Nicholas Roeg, 1971
Já escrevi três ou quarto vezes sobre esse filme, um dos meus favoritos. Um homem sai de seu apartamento confortável na cidade grande e, sem razão aparente, leva os dois filhos para o meio do deserto e tanta matá-los. As crianças sobrevivem e são resgatadas por um menino aborígene. Inesquecível.
Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs) - Sam Peckinpah, 1971
Dustin Hoffman faz um professor de matemática que se recolhe a uma vila isolada na Cornualha com a mulher, uma coisa de louco interpretada por Susan George, e acaba atraindo a atenção indesejada de um bando de personagens macabros da vila. Peckinpah explorando seu tema favorito: a linha entre a civilidade e a barbárie.
Amargo Pesadelo (Deliverance) – John Boorman, 1972
Quatro executivos (incluindo Burt Reynolds e John Voight) decidem passar um fim de semana andando de canoa em uma floresta remota na Georgia, mas acabam entrando em conflito com sádicos caipiras locais. Mais um filme sombrio sobre o contraste da civilidade e da violência.
O Silêncio do Lago (Spoorloos) - George Sluizer, 1988
Numa viagem de carro pelo interior da França, um casal para num posto de gasolina. A mulher some misteriosamente. O marido passa os anos seguintes tentando encontrá-la. Nunca vou esquecer a primeira vez que vi esse filme, numa sessão de meia-noite no Estação Botafogo. O diretor Sluizer depois ganhou uma boa grana para estragar seu filme com uma versão americana, estrelando Kiefer Sutherland e Sandra Bullock.
Busca Frenética (Frantic) – Roman Polanski, 1988
Mais um de Polanski. Harrison Ford faz um médico que vai a Paris para um congresso com a esposa. A mulher some, e ele tem de descobrir o que aconteceu. A primeira metade do filme é tensa e misteriosa. A segunda metade é um besteirol indigno de Polanski, mas o começo é bom demais.
Implacável Perseguição (Breakdown) - Jonathan Mostow, 1997
O casal Kurt Russell e Kathleen Quinlan cruza os Estados Unidos de carro. Quando o automóvel quebra, no meiodo deserto, surge um misterioso caminhoneiro (o ótimo J. T. Walsh) oferecendo ajuda. Você aceitaria?
Wolf Creek – Greg MacLean, 2005
Grupo de turistas encontra um caipira simpático no meio do deserto australiano. Mas o moço se revela menos amigável do que aparenta. O tema é batido, mas o filme é apavorante. Tarantino o homenageou em “Death Proof”, quando, durante uma perseguição, um carro destrói a placa de um drive-in que exibe “Wolf Creek”.
Escrito por André Barcinski às 08h55
Garagem, 20 anos: parece que foi ontem

Em 2012, o Garagem, programa de rádio que apresento com o amigo Paulo Cesar Martin, completa 20 anos.
Na primeira semana de fevereiro vamos gravar um programa especial na Rádio UOL, reunindo vários personagens importantes da história do Garagem.
O Garagem sempre foi um hobby para nós. Uma diversão. Nunca tivemos a intenção de profissionalizar o programa. Acho que foi por isso que durou tanto.
Quando começamos, em 1992, na Rádio Gazeta, o objetivo era exatamente o mesmo de hoje: falar besteira e tocar música que gostamos.
Por sorte, algumas pessoas nos deram espaço: Alberto Helena Jr. na Rádio Gazeta; Tatola e Roberto Maia na Brasil 2000; Kid Vinil, na segunda encarnação do programa na Brasil 2000 e, finalmente, Jan Fjeld e Felipe Vazquez, na Rádio UOL. A todos, nosso muito obrigado.
Queria agradecer também a todo mundo que colaborou com o programa nesses 20 anos: Álvaro Pereira Jr. (co-apresentador e correspondente californiano), Forasta (sócio-fundador), Djeff, Fábio Nipoluso, Alexandre Cassolato, Geraldo Arcanjo, a espetacular Larissa, a destemida Verônica, escravo Gabriel, Marcelo Orozco, Sandrão, Babu, Renato Yada, Ary Robocop, Fábio Massari. Um agradecimento especial a Ana Maria Broca, por tantos anos de bons serviços. Se tudo der certo, todos estarão com a gente nesse programa especial.
Estou esquecendo um monte de gente, claro. A todos que esqueci, peço desculpas.
Hoje, por questões pessoais e logísticas, não podemos gravar o Garagem com a periodicidade ideal. Mas isso não quer dizer que não nos divertimos quando gravamos.
Se existe uma coisa de que me orgulho sobre o programa é de nunca ter tocado uma música por exigência da emissora ou de alguma gravadora.
Uma vez, um estudante de um curso de Rádio e TV nos disse que sugeriu ao professor uma análise do Garagem, como tema do curso. O professor ouviu o programa algumas vezes e disse ao aluno que o Garagem ia contra tudo que ele ensinava. Deu um orgulho danado.
O Garagem deixou algumas lições nesses 20 anos: a primeira é que esculacho, inconseqüência e um pouco de insanidade podem resultar em coisas boas. A segunda é que nada é tão libertador quanto não ter a menor idéia do que se está fazendo.
Escrito por André Barcinski às 07h23
Um sonho para a Cracolândia

Morei no Centro de São Paulo pela primeira vez em 1990. Primeiro na região da Praça Roosevelt, depois em Campos Elíseos e Santa Cecília.
Há 22 anos, ouço falar da tal revitalização do Centro. Não acredito em mais nada.
Perdi a conta de quantos amigos compraram imóveis no Centro, motivados pelos preços baixos e apartamentos gigantes, só para desistir depois do enésimo ataque por algum maluco de olhos injetados e garrafa quebrada na mão.
Acho gozado quando falam que a Cracolândia fica na região da Rua Helvétia. Para mim, o Centro todo é uma enorme Cracolândia.
Já vi cenas de horror do Bom Retiro à Bela Vista, em cima e embaixo do Minhocão, no Brás e na Liberdade. Até na feira de domingo no Largo de Santa Cecília. Sempre foi assim. Nunca conheci o Centro sem a Cracolândia.
Aos domingos, quando os paulistanos buscavam um parque ou fugiam para o litoral, eu costumava andar de bicicleta pelas ruas vazias.
Para quem não se ligou ainda na beleza da arquitetura do Centro de São Paulo, especialmente da região próxima à Luz, é uma ótima maneira de ver os prédios e casarões antigos, sem o trânsito e as multidões para atrapalhar.
Sempre achei que aquela região tinha tudo pra ser um local especial da cidade.
Imagine se o governo incentivasse negócios e empresas a ocuparem a região? Se diminuísse impostos ou promovesse incentivos para centros culturais, teatros, cinemas, escolas, lojas? Imagine se, a exemplo de cidades como Austin, no Texas, qualquer empresa que trabalhasse com cultura tivesse descontos no imposto?
Imagine o Centro de São Paulo, com todos aquelas galpões e casarões que hoje estão sendo derrubados na Rua Helvétia, ocupados por casais jovens com filhos?
Por que o Centro velho de São Paulo não poderia ser uma área cheia de escritórios de design, galerias de arte, livrarias?
Por que não existe uma política pública eficiente para o recolhimento e tratamento adequados aos dependentes de crack? Por que o policiamento é tão mal feito? Por que as ruas são tão escuras?
Será que vai ser preciso alguma incorporadora comprar todos os prédios da Cracolândia e começar a “transformar” aquela região, para que o policiamento melhore? E as pessoas que moram ali hoje, não merecem um policiamento decente?
Com relação ao crack, concordo 100% com Drauzio Varella, que escreveu: “a contragosto, sou daqueles a favor da internação compulsória dos dependentes de crack.” (leia a íntegra da coluna de Varella aqui).
Anteontem, li que a prefeitura começou a derrubar prédios “irregulares” na Cracolândia. Ótimo. Mas quem decide se um prédio está em situação irregular? A mesma prefeitura que demora décadas para emitir um alvará? Você confia?
Será que vamos expulsar moradores e viciados em drogas e derrubar prédios antigos só para entregar o Centro à especulação imobiliária?
Espero que não. Espero que eu esteja errado, e que os moradores do Centro possam, daqui a alguns anos, viver num lugar seguro e agradável. Espero que os dependentes químicos sejam tratados de maneira eficiente e que o tráfico seja coibido na cidade toda.
Mas não acredito.
Não acredito, porque conheci a Barra Funda e a área da Leopoldina há oito ou dez anos, e fico assustado com a rapidez com que sobem ali prédios com muros de cinco metros e arame farpado.
Espaço vazio é um luxo cada vez mais raro em São Paulo. Só espero que a prefeitura não veja o Centro como mais um espaço vazio a ser explorado.
Escrito por André Barcinski às 08h27
"Paradise Lost": acabou a caça às bruxas
Semana passada, estreou na TV americana “Paradise Lost 3 – Purgatory”, terceiro e último documentário sobre um dos casos jurídicos mais escabrosos e revoltantes dos Estados Unidos.
Em 1993, três crianças de oito anos apareceram mortas em um riacho em West Memphis, no estado de Arkansas. Os corpos haviam sido mutilados, no que parecia um ritual satânico.
A polícia prendeu três adolescentes – Damien Echols, James Baldwin e Jessie Misskelley - depois da confissão de Misskelley.
Uma equipe da HBO, incluindo os diretores Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, acompanhou o caso por quase um ano, entrevistando os acusados, a polícia e os parentes das vítimas. A equipe teve acesso ao julgamento e pôde filmar os bastidores do tribunal.
O resultado foi “Paradise Lost – The Child Murders at Robin Hood Hills” (1996), um documentário arrasador.
O filme levantava muitas dúvidas sobre a culpa dos acusados. Não havia nenhuma prova que os ligasse ao crime, e a confissão de Misskelley – um rapaz com QI limítrofe de 72 e óbvios problemas mentais – aparentava ter sido coagida pelos policiais.
Os “Três de West Memphis”, como foram batizados pela mídia, haviam sido claramente crucificados por sua aparência. Eram fãs de heavy metal, usavam preto e se destacavam na multidão. Damien Echolls, com seu visual gótico, era considerado o “freak” da cidade.
O filme traçava também um perfil sombrio de West Memphis, uma cidade pequena e marcada por pobreza, ignorância, drogas, desemprego e fanatismo religioso.
Os personagens do filme parecem a família canibal de “O Massacre da Serra Elétrica do Texas”: caipiras desdentados, psicóticos, loucos de anfetamina e aparentemente nascidos de casamentos consanguíneos.
Um personagem em especial, John Mark Byers, padrasto de uma das crianças assassinadas, periga ser a criatura mais assustadora, repugnante e misteriosa que já vi num filme.
Depois da estréia de “Paradise Lost”, o caso atraiu muita atenção da mídia. Celebridades como Metallica, Eddie Vedder e Johnny Depp passaram a apoiar grupos que pediam um novo julgamento para “os três de Memphis”.
Os diretores Berlinger e Sinofsky continuaram acompanhando o caso por quase 20 anos e fizeram mais dois filmes, “Paradise Lost 2 – Revelations” (2000) e “Paradise Lost 3 – Purgatory”.
Não vou estragar a surpresa contando o que rolou nos filmes. Só posso dizer que os fatos são muito mais estranhos que qualquer obra de ficção.
Não sei se os filmes foram exibidos ou saíram em DVD por aqui. Mas faça o que precisar para assisti-los. Se puder, veja os três na sequência. É uma saga macabra que prova que existem lugares onde a Inquisição nunca acabou.
E para quem se impressionou com “Paradise Lost”, sugiro outros dois filmes dirigidos pela dupla Joe Berlinger e Bruce Sinofsky: “Brother’s Keeper” (1992), sobre uma família de fazendeiros em que um dos membros aparece morto, e “Some Kind of Monster” (2004), o tenso relato dos bastidores da gravação de um disco do Metallica.
Escrito por André Barcinski às 07h36
O cinema mudo continua emocionando platéias. Agradeça a esse sujeito aqui...

O inglês David Robinson, 81, é um dos maiores estudiosos e pesquisadores da história do cinema mudo. Seu livro “Chaplin – Uma Biografia Definitiva” (Ed. Novo Século, 792 págs.), considerado por muitos o trabalho mais completo sobre Chaplin, acaba de sair no Brasil.
Entrevistei Robinson para a Folha. A entrevista foi publicada há algumas semanas, mas boa parte dela não coube no jornal. Como achei que o papo foi muito bom, resolvei postar a íntegra, aqui. Aproveite:
Seu livro sobre Chaplin foi publicado originalmente nos anos 80 e depois revisado para novas edições. Essa versão que está sendo lançada no Brasil é a mais atual?
Acredito que sim. A edição de 2001, que foi traduzida para essa versão em português, teve várias adições e correções em relação à edição original de 1985.
Desde que o senhor publicou o livro, surgiram novas revelações sobre a vida e obra de Chaplin, que o senhor pôde incluir em edições posteriores?
Não acredito que tenham surgido novas descobertas fundamentais. Mas, graças ao trabalho de outros pesquisadores, pudemos ter uma idéia mais clara a respeito dos primeiros dias de Chaplin na Keystone. Depois que essa edição brasileira foi publicada, foi descoberta uma participação de Chaplin, no papel de um policial, em um filme chamado “The Thief Catcher”. Mas ele só aparece por um minuto e o filme não é lá muito engraçado, então não é, exatamente, uma grande revelação. Sei que um grande pesquisador, Barry Anthony, está preparando um livro sobre a carreira de Chaplin em teatros musicais, e acho que ele descobriu coisas novas sobre as carreiras bem modestas da mãe de Chaplin e de sua tia, Kate. Isso é algo que me interessa muito.
O senhor teve contato pessoal com Chaplin?
Diria que eu o vi umas seis vezes e me encontrei com ele provavelmente duas vezes. A primeira vez foi na estréia de “Luzes da Ribalta”, em 1952. Eu era um jovem e pobre estudante de cinema, mas consegui juntar o dinheiro necessário para comprar um ingresso e alugar um terno para a ocasião. Era excitante ver uma lenda que me acompanhou por toda a juventude, em carne e osso, e acompanhado de sua linda esposa, Oona, que tinha vinte e poucos anos.
Depois disso eu o vi, e algumas vezes o entrevistei em coletivas de imprensa, para “Um Rei em Nova York”, “A Condessa de Hong Kong” e a para o relançamento de “Tempos Modernos”.
Finalmente, os Chaplins gostaram muito de uma crítica que escrevi sobre “Luzes da Ribalta” e fizeram contato comigo. Acabei convidado para a festa de família que celebrava sua condecoração pela Rainha Elizabeth 2ª, e depois para estar com ele em seus últimos dias de trabalho no cinema. Essas ocasiões em que o encontrei e pude conversar e conhecê-lo de uma maneira mais íntima e tranquila, infelizmente, aconteceram um pouco tarde demais. Percebi que sua mente ainda estava alerta, mas ele tinha muita dificuldade de se comunicar. Chaplin foi, no entanto, muito gentil e charmoso. E, mesmo que tenha falado pouco, pude perceber que estava na presença de um ser humano extraordinário e mítico.
Como o senhor sente que novas gerações de cinéfilos e estudantes de cinema reagem a filmes da era do cinema mudo?
Eu dirijo o Festival de Cinema Mudo Pordenone (Il Giornate Del Cinema Muto) e todo ano atraímos mais e mais jovens. Temos uma espécie de comissão que convida doze jovens todo ano, e esses jovens se qualificam não pelo conhecimento a respeito de cinema mudo, mas pela curiosidade de conhecer mais sobre o tema.
Nas sessões que promovemos, os jovens são, sem dúvida, os mais entusiasmados. Eles realmente entendem e reagem 100% aos filmes. Eu acredito que boa parte dos jovens responderia da mesma forma, uma vez que descubram os filmes mudos.
Eu também trabalho com o Bristol Slapstick Festival, e todo ano nós lotamos um cinema de 1500 lugares, a maioria com jovens e pessoas que nunca viram um filme mudo com orquestra. A reação é sempre de êxtase, e imagino que muitos deles, depois disso, virem fãs de performances de filmes mudos com música ao vivo – é uma experiência muito especial.
Nos últimos anos, com a proliferação de “home theatres” e TVs a cabo, assistir a filmes tem se tornado uma experiência mais solitária. No entanto, os filmes de gênios como Chaplin e Keaton foram feitos para ser vistos com uma multidão, numa tela grande. O senhor acredita que a maneira como as pessoas assistem a filmes, hoje, pode mudar a reação delas aos filmes?
Sim. A tela pequena e a tela grande oferecem experiências diferentes. Acredito que filmes menores ou dramas íntimos podem funcionar bem ou até melhor na tela pequena, mas eu acho até grotesca a idéia de assistir a filmes grandes, espetaculares ou de ação, numa tela pequena.
Certamente, os filmes mudos – repletos de emoção, seja humor ou sentimento – foram feitos para o cinema, e as comédias, em especial, funcionam melhor com uma platéia grande. Especialmente no caso de Chaplin. Mesmo um de seus filmes sonoros, “Luzes da Ribaltat”, pode parecer péssimo numa tela de TV, enquanto no teatro, com a reação de uma platéia grande, que é como os filmes foram originalmente concebidos, é uma obra-prima.
Como um especialista no trabalho dos pioneiros do cinema, o senhor acredita que ainda existam filmes e diretores que ainda não foram devidamente estudados, ou que mereciam maior reconhecimento?
Eu sei disso muito bem, porque todo ano, no Festival Pordenone, surpreendemos nosso público - que é muito bem informado sobre o assunto – com filmes ótimos que eles não conheciam e de que nunca tinham ouvido falar.
Atualmente, temos aprendido que o cinema soviético foi muito mais rico e variado do que acreditávamos. Nos últimos dois anos, temos exibido o trabalho de um diretor chamado Lev Push, cujos filmes fascinantes, feitos na Georgia, simplesmente desapareceram depois que ele virou alvo de perseguição política de Stalin. Mas espero que tenhamos conseguido colocar seu nome nos livros de história do cinema.
Qual sua opinião sobre a indústria do cinema hoje?
É uma pergunta difícil. A hegemonia de Hollywood só cresce a cada dia, em detrimento dos cinemas locais. E cada vez menos filmes hollywoodianos me interessam hoje. Sinto como se estivesse vendo lindos produtos, mas frequentemente produtos sem inspiração.
Muitos críticos têm escrito sobre a crise no cinema moderno. O que o senhor acha disso?
Para minha surpresa, fiquei muito feliz e otimista com os filmes que vi esse ano em Cannes porque, pela primeira vez, tive a impressão que cineastas estavam tentando lidar com o mundo de hoje. É um mundo duro, e foi uma boa surpresa ver cineastas tentando enfrentá-lo, em vez de se retrair à familiar evasão de filmes românticos ou de ação.
Meu filme predileto de 2011 é provavelmente “Le Havre”, de Aki Kaurismaki, em que ele explora a noção, totalmente fora de moda, de que as pessoas podem ser boas. Acho que Chaplin teria gostado do filme.
Escrito por André Barcinski às 08h32
Grandes escritores falam sobre seu ofício

Continuando o tema do post de ontem, selecionei alguns trechos em que escritores falam de seu ofício.
Nenhum texto sobre o assunto pode deixar de mencionar as famosas entrevistas da “Paris Review”, revista fundada em 1953 e que já sabatinou gente como Nabokov, Hemingway, Borges, Garcia Marquez, Elizabeth Bishop, Cortázar e todos os grandes escritores dos últimos 60 anos.
Várias coletâneas de entrevistas da “Paris Review” foram publicadas no Brasil. Se você lê em inglês, pode procurar as entrevistas no site da revista.
Aos fãs de Elmore Leonard, sugiro ler “Dez Regras para Escrever um Romance”. Achei o texto traduzido no blog de meu amigo André Forastieri (leia aqui).
E aqui vão algumas opiniões sobre literatura, por autores que admiro. Quem tiver outras, mande, por favor:
“É um cubo mágico. Memórias e conceitos detonam movimentos internos. Imagens substituem blocos coloridos e clicam em coesão. Colunas conectam. Linhas surgem. Você pega o que precisa e o que você foi e passa tudo pelo filtro do que você se tornou. Você impõe ordem. Você joga uma cereja no bolo. Se você é talentoso e honesto e puro, tudo funciona (...)
Foda-se a escola. Foda-se o trabalho duro. Foda-se essa mentira de que você está fodido e mal pago sem um diploma. Leia, assista a filmes policiais, vague por Los Angeles. Fantasie e cutuque seu nariz e conte histórias para você mesmo. (...) Seja preguiçoso. Seja indolente. Ignore a sabedoria adulta. Seja consumido pelo fogo de seu insensato auto-conhecimento.” James Ellroy (Where I Get My Weird Shit)
“Escreva bêbado, edite sóbrio.” Ernest Hemingway
“Ler geralmente precede escrever, e o impulso de escrever é quase sempre motivado pela leitura. Ler é o que faz alguém sonhar em ser um escritor.” Susan Sontag
“O livro nunca se compara ao sonho da perfeição que o artista tem quando o inicia.” William Faulkner
“Escrever é o oposto de fazer sexo: só é bom quando termina.” Hunter S. Thompson
“Quanto mais rápido escrevo, melhor eu escrevo. Se estou muito devagar, estou em apuros. Significa que estou empurrando as palavras em vez de estar sendo empurrado por elas.” Raymond Chandler
“Escrever um romance é como dirigir à noite. Você só consegue enxergar até onde os faróis iluminam, mas você pode completar a viagem dessa maneira.” E. L. Doctorow
“À noite, quando o mundo objetivo retorna à sua caverna, deixando os sonhadores a sós, surgem inspirações e capacidades impossíveis em qualquer hora menos mágica e menos silenciosa. Ninguém sabe se é ou não um escritor se não tentou escrever à noite.” H.P. Lovecraft
“Nunca tive dúvidas sobre minha capacidade. Sempre soube que podia escrever. Eu só tinha de descobrir como comer enquanto escrevia.” Cormac McCarthy
“Um escritor não soluciona problemas, ele permite que eles surjam.” Friedrich Dürrenmatt
“Você nunca termina um livro, você os abandona.” Oscar Wilde
“Devo meu sucesso a ter sempre ouvido respeitosamente os melhores conselhos, e depois ter feito exatamente o oposto.” G.K. Chesterton
Escrito por André Barcinski às 08h34
Escritores ensinam a enfrentar o maior inimigo: a página em branco

Adoro ler entrevistas com escritores. Especialmente quando falam sobre o que não podemos adivinhar só pela leitura de suas obras, que são seus hábitos de trabalho.
Quando você lê os livros de um autor, já tem uma boa idéia de sua visão de mundo. Autores despejam suas idéias na página. Muitas vezes, não sobra nenhuma surpresa para contar depois.
Quantas vezes você não leu uma entrevista com um autor e adivinhou a maior parte do que ele iria dizer?
Já os hábitos de trabalho dos escritores costumam surpreender.
Gosto de saber se determinado autor escreve de manhã ou tarde da noite; se usa lápis ou computador; se relê seus textos a todo instante; se passa horas se martirizando sobre a colocação de uma vírgula ou se prefere derramar tudo na página e corrigir depois.
Gosto também de ler escritores dando dicas e falando sobre técnica.
Um dos livros que sempre releio, nem que seja aos pedaços, é “Telling Lies for Fun and Profit” (em tradução livre, “Contando Mentiras para Diversão e Lucro”), de Lawrence Block.
Não sou o maior fã de Block. Acho seus livros bons passatempos e não muito mais que isso. Mas esse volume, uma coletânea de colunas para a revista “Writer’s Digest”, é muito bom.
Mais que um manual de estilo, Block fala de problemas corriqueiros que escritores costumam enfrentar: devo imitar o estilo de meu autor predileto? Tive uma idéia, mas se parece muito com algo que alguém já fez. O que faço? Como encarar a rejeição de editores? Quantas horas devo escrever por dia?
Claro que são todas questões pessoais, que afetam a todos de maneiras diferentes. Mas, ao expor sua visão, Block desmistifica o ofício de escrever e mostra que, por mais famoso que seja o autor, no fundo ele é apenas mais um pobre coitado que batalha contra a página em branco.
Existem muitos livros semelhantes. Um dos mais divertidos é “On Writing”, de Stephen King, que vale a leitura mesmo para quem não é grande fã do autor.
Parte autobiografia, parte manual de ajuda para novatos, King conta detalhes de seus hábitos – só escreve sentado numa determinada cadeira azul em seu escritório, só termina um parágrafo quando cortou “todas as palavras supérfluas”, etc. – e comenta trechos de alguns autores, como Tom Wolfe e Elmore Leonard. Divertido demais.
Outro autor que também escreveu um livro chamado “On Writing”, e tão difícil de largar quanto o de Stephen King, foi George V. Higgins.
Quem leu “The Friends of Eddie Coyle”, elogiado por escritores tão diferentes quanto Martin Amis, Norman Mailer e Ross Macdonald e considerado por Elmore Leonard “o maior romance policial já escrito”, sabe que poucos escreveram diálogos tão bem quanto Higgins.
Nesse livro, Higgins dá dicas de como captar a “essência das ruas” e escrever diálogos memoráveis, citando alguns de seus autores prediletos como Hemingway, Dickens, Irwin Shaw e Gay Talese.
Block, King e Higgins concordam em muitas coisas: não existe um escritor que não seja atormentado por dúvidas; não existe uma linha direta entre a musa e a página; todo autor é inseguro; a única maneira de escrever bem é ler muito e escrever muito. E, principalmente: ESCREVER É TRABALHO DURO.
Higgins ironiza até os próprios fãs, que não cansavam de elogiar “a maneira fluida e fácil com que ele escreve diálogos”. “Essa maneira 'fácil' de escrever me levou quase 20 anos para aprender”, disse Higgins, que escreveu 14 romances e depois destruiu todos os originais antes de lançar, aos 41 anos de idade, seu romance de estréia, justamente “The Friends of Eddie Coyle”.
Claro que esses livros não devem ser levados a ferro e fogo. O negócio é ler, absorver o que achar útil e depois quebrar todas as regras. Porque nada está escrito em pedra. E o que vale para Stephen King não vale, necessariamente, para você.
P.S.: Separei alguns trechos de entrevistas e textos em que grandes escritores falam sobre o ofício de escrever. Publico amanhã. Até lá.
Escrito por André Barcinski às 08h41
Que Reginaldo Rossi nada; o verdadeiro rei do brega chama-se Steven Spielberg
Sugiro que você pare tudo que estiver fazendo e corra ao cinema mais próximo para ver “Cavalo de Guerra”, de Steven Spielberg. É o filme mais engraçado dos últimos anos.
“Cavalo de Guerra” conta a história da amizade entre um cavalo e um rapaz, durante a Primeira Guerra Mundial. É isso mesmo: uma espécie de “Marley e Eu” bélico, e com um eqüino no lugar do cão fofinho (Marcelo Coelho escreveu um texto formidável sobre o filme; leia aqui).
Com esse filme, Spielberg se consolida como o cineasta mais cafona da história do cinema. Ninguém foi tão brega por tanto tempo.
Seu gosto pelo kitsch inclui bandeiras tremulando ao vento e coadjuvantes bondosos agonizando enquanto dizem suas últimas palavras.
Some a isso diálogos pomposos sobre coragem e patriotismo, atuações caricatas como Papais Noéis de shopping, cenários de Norman Rockwell, e a breguice sinfônica da música de John Williams, e temos um típico dramalhão à Spielberg.
Mas “Cavalo de Guerra” é especial. Periga desbancar até mesmo “A Cor Púrpura” do topo do ranking de filmes mais sentimentalóides do diretor.
Numa das cenas mais ridículas, o quadrúpede observa, em silêncio reverente, enquanto um amigo pangaré agoniza (felizmente, sem discurso de despedida).
Perdi a conta de quantas vezes Spielberg tentou copiar John Ford, mostrando cavalos em contraluz trotando pelo horizonte, enquanto os alto-falantes cospem alguma música religiosa, típica daqueles quadros assistencialistas de TV que dão uma casa ou caderneta de poupança para algum miserável.
Até os filmes mais sérios e celebrados de Spielberg, como “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, apelam a fórmulas fáceis do dramalhão (quem é capaz de esquecer aquele borrão vermelho no corpo da menina, em “Schindler”, fazendo o contraponto ao preto e branco austero do filme?).
O curioso é que Spielberg, embora seja o cineasta mais cafona do mundo, não é sempre cafona.
Como explicar “Os Caçadores da Arca Perdida”, “Tubarão” e, mais recentemente, “Prenda-me Se For Capaz” e “Munique”?
São filmes ótimos, extremamente bem feitos e sem um pingo do aspartame enjoativo que costuma acompanhar o diretor. Serão a regra ou as exceções?
De qualquer forma, não posso esperar até o Natal, quando Spielberg lançará “Lincoln”, com Daniel Day-Lewis no papel de Abraham Lincoln. Promete ser uma overdose de bandeiras tremulando e closes em rostos chorosos, quando Lincoln, agonizante, disser suas últimas palavras.
Escrito por André Barcinski às 07h57
Um dos discos mais esperados de 2012 vem de um jovem de 77 anos
Vai ser difícil aguentar a ansiedade até 31 de janeiro. Nesse dia, Leonard Cohen, 77, lança seu primeiro disco de inéditas em oito anos, “Old Ideas”.
Confesso que não tinha me impressionado muito com o primeiro single do disco, “Show Me The Place”, que Cohen lançou há dois meses.
Mas anteontem ele colocou na web uma música nova, “Darkness”, um blues-gótico reptílico e cabuloso, com aquele clima de cabaré do inferno que é 100% Cohen. Não ouço mais nada há dois dias.
Leonard Cohen é um caso raro de intérprete que melhora com a idade. Prefiro sua voz gutural hoje que a que tinha nos anos 70, quando gravou seus melhores discos.
“Live in London”, o CD/DVD que ele lançou há dois anos, é um dos favoritos aqui de casa. Se você não conhece o trabalho de Leonard Cohen, é um ótimo ponto de partida.
Cohen é um poeta que só virou músico depois dos 30 anos de idade. Meticuloso, cria cada letra com a falta de pressa de quem sabe estar fazendo algo especial.
Cada vírgula é estrategicamente colocada para obter máximo impacto emocional. Não consigo ouvir outra pessoa interpretando suas músicas. Soa falso.
Como poeta-que-virou-cantor, criou um estilo próprio, meio sussurrado, meio falado. Andy Warhol dizia que Cohen, um dos muitos artistas a orbitar em torno da Factory, ficou obcecado pela voz gélida e marcial de Nico. Faz sentido.
É difícil pensar no pop-rock dos últimos 30 anos sem a influência de Leonard Cohen. Nick Cave modelou toda sua estética nele. Siouxsie Sioux, Michael Stipe, PJ Harvey, Antony, Trent Reznor e tantos outros copiaram muito. Andrew Eldritch batizou sua banda – The Sisters of Mercy – com o nome de uma canção de Cohen.
Cohen parecia ter se aposentado da música, mas foi obrigado a excursionar depois que foi roubado por sua agente. Graças à bandida, temos a chance de vê-lo de novo em cima de um palco.
Espero que “Old Ideas” seja tudo que “Darkness” promete. E, se nenhum festival ou produtor brasileiro trouxer Leonard Cohen esse ano, não teremos outra opção senão programar uma viagem para ver o velhinho.
Escrito por André Barcinski às 08h49
A história de Muhammad Ali, contada por quem o enfrentou
Se você gosta de boxe, anote aí: a HBO está exibindo “Encarando Ali” (2009), de Pete McCormack. É um dos melhores documentários sobre boxe que já vi.
O filme conta a vida e carreira de Muhammad Ali por meio de depoimentos de seus principais adversários, como George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton, Larry Holmes, George Chuvalo, Earnie Shavers e Leon Spinks, entre outros.
Eles falam da dificuldade de enfrentar Ali e contam detalhes das lutas. Os depoimentos são intercalados com imagens de arquivo de Ali.
Algumas coisas ficam óbvias depois de assistir ao filme.
A primeira é que nunca houve um esportista como Muhammad Ali. Seu talento, carisma e importância histórica são insuperáveis.
A segunda é que nunca existiu um peso-pesado tão inteligente quanto ele, capaz de criar táticas maquiavélicas para superar adversários mais fortes, como na histórica luta contra George Foreman no Zaire, em 1974, quando apanhou por vários rounds só para tirar a energia de Foreman, antes de nocauteá-lo.
No filme, Foreman conta como Ali, no fim de um round, olhou para ele com uma expressão irônica e que parecia dizer: “Aha, te enganei. Agora vou acabar com você.”
Mas Ali não é o único grande personagem do filme. As histórias de vida de vários dos entrevistados são impressionantes.
É o caso de George Chuvalo, um peso-pesado canadense que perdeu duas vezes para Ali por pontos e que nunca foi nocauteado em mais de 90 lutas e 23 anos como profissional.
Chuvalo fala sobre a miséria de sua infância e relata sua trágica vida familiar, quando perdeu três filhos e a esposa para as drogas (a mulher e um dos filhos cometeram suicídio).
Os depoimentos são reverentes a Ali, mas os entrevistados não deixam de destacar suas fraquezas.
Chuvalo, por exemplo, garante que Sonny Liston entregou a famosa luta de 1965 contra Ali (diz a lenda que Liston trabalhava para a máfia de Chicago, que havia apostado pesadamente numa vitória de Ali).
Um frágil Joe Frazier – que morreria no fim de 2011 - lembra a humilhação que sentiu com as provocações de Ali na imprensa, que feriram seu orgulho e o motivaram a vencer Ali na “Luta do Século”, em 1971.
Um dos depoimentos mais comoventes é o de Ron Lyle. Preso por assassinato ainda adolescente, Lyle aprendeu boxe na prisão e tornou-se um dos pesos-pesados mais temidos de sua época.
Lyle foi um dos únicos três homens a derrubar George Foreman e perdeu para Ali por nocaute técnico, numa luta que vencia por pontos e cuja interrupção foi motivo de muita polêmica.
Apesar disso, Lyle parece grato a Ali: “Eu vim da prisão, quase morri, mas tive a chance de lutar contra o maior campeão que já existiu. Estar frente a frente com Ali mudou minha vida.”
Escrito por André Barcinski às 08h46
Já existiu alguém mais engraçado que John Cleese?
As festas de fim de ano aqui em casa foram bem mais divertidas com a chegada do DVD “John Cleese – The Alimony Tour”.
Trata-se da gravação da mais recente turnê de Cleese, conhecido por sua participação no grupo cômico inglês Monty Python.
Como o nome já diz, Cleese, 72, precisou fazer a turnê para pagar pensão – 20 milhões de dólares, segundo ele - à ex-mulher, de quem se divorciou em 2008.
Mais que um show cômico, “The Alimony Tour” é uma espécie de retrospectiva da carreira de Cleese. Ele fala de sua vida e conta casos sobre a carreira, acompanhados por clipes sensacionais de quadros que fez com Peter Sellers, Marty Feldman e, claro, com o Monty Python.
O show é muito engraçado. Claro que Cleese, aos 72 anos e recentemente operado do quadril e do joelho, não tem a mesma capacidade de desempenhar a comédia física que o consagrou em quadros como “o Ministério dos Andares Cretinos”. Mas o texto é fenomenal.
Depois de trucidar a ex-mulher, Cleese conta sua infância, passada na pequena cidade litorânea de Westou-super-mare, segundo ele, um dos piores lugares na Terra e alvo de bombas nazistas na Segunda Guerra.
Historiadores têm tentando entender, ao longo dos anos, por que um povo lógico e calculista como o alemão bombardearia Weston”, diz Cleese. “Não faz sentido, uma vez que nada que eles pudessem destruir lá poderia custar mais que as próprias bombas.”
Para fãs de Monty Python e “Fawlty Towers”, o DVD é imperdível, com muitas histórias de bastidores e curiosidades. Cleese diz que ele e os companheiros do Monty Python não tinham a menor idéia de como seria o programa quando o propuseram à BBC. “Hoje, ninguém bancaria um programa daqueles”.
Cleese conta histórias bizarras sobre Graham Chapman, seu maior parceiro da época do Monty Python e um personagem verdadeiramente alucinado. Um dia típico de Chapman incluiria fantasiar-se de coelho para participar de um debate em Oxford sobre desarmamento nuclear, em que ele passaria o tempo todo fingindo que estava comendo uma cenoura, acabando, assim, com qualquer possibilidade de debate.
Acho que nenhuma lista dos atores mais engraçados da TV e do cinema está completa sem John Cleese (a minha incluiria também Buster Keaton, Eddie Murphy, Totò, Steve Martin, Bill Murray, Groucho Marx e o próprio Graham Chapman).
Separei aqui um dos momentos sublimes da carreira de John Cleese, o quadro “Ministério dos Andares Cretinos”, do Monty Python (começa em 1:34). Não consigo pensar em um quadro cômico mais bem escrito e atuado que esse. Combina a comédia física do cinema mudo com sátira política e um toque bizarro e surrealista que era a marca registrada do Monty Python.
E aqui, um quadro raro do programa “At Last de 1948 Show” (1967) em que contracena com o grande Marty Feldman:
Escrito por André Barcinski às 08h26
Só Vampeta pode nos salvar

Dia 21 de dezembro, o Ajax recebia o AZ Alkmaar pela Copa da Holanda. O Ajax vencia por 1 a 0 quando um de seus torcedores invadiu o campo e começou uma briga com o goleiro do AZ.
O goleiro agrediu o torcedor e foi expulso pelo juiz. O técnico do AZ, revoltado, tirou o time de campo, e o juiz encerrou a partida.
A reação das autoridades foi rápida: o torcedor foi condenado a seis meses de prisão e pegou um gancho de 30 anos – repito, 30 anos – sem entrar em estádios de futebol. O Ajax foi multado em 10 mil euros e o jogo foi remarcado, com portões fechados e o placar zerado. Tudo isso levou seis dias para ser decidido e aplicado.
Na mesma semana, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que pretende proibir a venda de cerveja nas imediações do Engenhão para combater as brigas de torcidas.
Fica a pergunta: qual a diferença entre a atitude dos dirigentes holandeses e a dos cariocas?
Simples: os holandeses querem resolver o problema e agem de forma rápida e eficiente . Já os cariocas querem empurrar o problema com a barriga e violam a liberdade individual do cidadão apelando às manobras mais fascistas e preguiçosas, numa tentativa patética de encobrir a sua própria incompetência para lidar com o problema.
O futebol, nos dois casos, é um exemplo de como diferentes países lidam com suas questões.
É bom lembrar que já tivemos grandes filósofos futebolistas: nos anos 70, o craque Gerson celebrizou - em um anúncio de cigarro do qual viria a se arrepender depois - a frase “Você tem que levar vantagem em tudo, certo?”
Anos depois, outro filósofo das quatro linhas, Vampeta, soltou uma pérola que resume perfeitamente nosso Brasilzão. Comentando sua apagada passagem pelo Flamengo, Vampeta disse: “Eles fingiam que me pagavam e eu fingia que jogava”.
Em uma frase, o gênio sintetizou o país do faz de conta, onde quem manda finge resolver os problemas e a gente finge que acredita.
A Lei de Vampeta está em todo lugar.
Ela explica, por exemplo, como Ricardo Teixeira e o governo federal têm a cara de pau de dizer que a maior parte da verba para a Copa do Mundo de 2014 viria da iniciativa privada.
Explica como um político carioca pode afirmar que proibir cerveja em volta do estádio vai coibir a violência das torcidas.
Explica por que Kassab acha uma boa idéia proibir motocicletas na via expressa da Marginal Tietê para reduzir acidentes.
Finalmente, explica como Geraldo Alckmin pode dizer que vai acabar com a cracolândia em 30 dias.
Acho que a era de Gerson já passou. Levar vantagem em tudo já não é uma idéia, mas um dever cívico, impregnado em nosso DNA.
Já a Lei de Vampeta é bem mais complexa e, até certo ponto, metafísica. O filósofo questiona o próprio conceito de sociedade e relações sociais, estabelecendo um ponto de partida para discutir o teatro do nosso cotidiano.
Agora, quando o encanador que já furou três vezes diz que vem na segunda; quando um camarada que está te devendo grana há anos avisa que vai te pagar amanhã, ou quando o despachante promete “fazer um algo a mais” para resolver o seu caso, console-se: são todos discípulos de Vampeta.
Escrito por André Barcinski às 07h45
