André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

 

Mudanças no blog

Amigos,

Depois de muitos pedidos, o prestativo pessoal da Folha.com mudou a plataforma de publicação de todos os blogs. A nova plataforma é bem mais fácil de usar e tem recursos que a plataforma antiga não tinha. A partir de segunda, dia 13, meu blog pode ser acessado no seguinte endereço:

http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br

Claro que o sistema, por ser novo, está ainda sujeito a alguns problemas técnicos. Peço que, se algum leitor tiver algum problema ou sugestão, por favor, envie para meu e-mail, andrebarcinski.folha@uol.com.br, que eu repasso à equipe da Folha.com.

Os textos antigos do blog estarão disponíveis.

Obrigado

 

Escrito por André Barcinski às 10h09

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“O Artista”, ou quando o silêncio brigou com o som

 “O Artista”, filme do francês Michael Hanavicius e favorito ao Oscar, estréia hoje no Brasil (leia minha crítica na Folha aqui).

Gostei bastante do filme. Especialmente porque trata de um dos períodos mais interessantes do cinema, a transição entre o filme mudo e o sonoro, ocorrida no fim dos anos 20.

O cinema sonoro foi uma verdadeira revolução. Salvou Hollywood da falência, mas afundou a carreira de vários artistas de talento.

Muita gente não conseguiu se adaptar ao som. Astros como Douglas Fairbanks, Lilian Gish e Mary Pickford abandonaram o cinema. Outros foram boicotados por causa de seus fortes sotaques estrangeiros, como a polonesa Pola Negri e o alemão Emil Jannings.

Charles Chaplin também penou. Ficou cinco anos sem filmar depois de “Luzes da Cidade” (1931). Ele até pensou em fazer “Tempos Modernos” (1936) como um filme totalmente sonoro, mas desistiu. Chaplin achava que o charme de Carlitos acabaria se ele falasse, e nunca mais usou o personagem em um filme.

O caso de John Gilbert, inspiração do personagem central de “O Artista”, é marcante. Grande astro do cinema mudo, Gilbert teve um romance conturbado com Greta Garbo.

Diz a lenda hollywoodiana que Gilbert brigou com o poderoso produtor Louis B. Mayer. No primeiro filme sonoro de Gilbert, Mayer mandou o técnico de som “afinar” a voz do ator, causando gargalhadas e deboche da platéia. Gilbert entrou em decadência e bebeu até morrer, em 1936, aos 38 anos.

De qualquer forma, não dá para negar que o cinema sonoro salvou Hollywood. Mesmo em meio ao Crash da Bolsa em 1929 e à Grande Depressão, o número de ingressos vendidos no país e o lucro dos estúdios aumentaram muito depois da introdução do som.

Outra conseqüência da fase sonora foi, paradoxalmente, um retrocesso técnico e estilístico do cinema.

No fim dos anos 20, os grandes diretores haviam lapidado suas técnicas de filmagem. Os movimentos de câmera estavam cada vez mais criativos; a montagem, cada vez mais ousada.

Quando o som chegou ao cinema, houve uma mudança brusca. As câmeras tiveram de ser “blindadas” em gigantescas caixas à prova de som, para que o barulho da câmera não fosse captado pelos microfones. Isso limitou demais os movimentos de câmera.

A necessidade de colocação de grandes microfones, ocultos no cenário, também ajudou a “engessar” as cenas.

Por isso, os primeiros filmes sonoros são, em sua maioria, primariamente filmados, em comparação com os grandes filmes mudos.

King Vidor (1894-1982), um dos maiores cineastas americanos, deu um depoimento esclarecedor sobre o assunto:

“Acredito no progresso, e é difícil dizer que o cinema era melhor na fase muda. Mas posso lembrar que, nos fim dos anos 20, eu e outros diretores, como Clarence Brown e Henry King, acreditávamos ter atingido uma forma artística que era única (...) as técnicas do cinema mudo eram universais. Chaplin, afinal de contas, era o homem mais famoso do mundo. Levamos dez ou quinze anos para voltar ao estágio em que estávamos no auge do cinema mudo, com a mobilidade e expressionismo que a câmera silenciosa havia atingido.”

Escrito por André Barcinski às 08h54

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Nove semanas e meia de fogo e paixão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma semana péssima para o amor: morreram Zalman King e Wando, dois artistas da velha escola do fogo e da paixão.

Pensei em escrever um texto biográfico sobre Wando, mas o UOL nos fez o favor de disponibilizar a entrevista que o cantor deu ao Garagem, em 1999 (ouça aqui). Não tem jeito melhor de homenagear Wando do que ouvi-lo falar e cantar.

Sobre Zalman King, que morreu dia 3, de câncer, só posso dizer que, embora sua morte tenha merecido poucas linhas na imprensa, que sempre o espinafrou, qualquer um que foi adolescente nos anos 80 deve muito a ele.

Aqui, trechos de um pequeno tributo a King, que publiquei na Folha:

Em 1986, King escreveu e produziu “Nove Semanas e Meia de Amor”, um drama erótico dirigido por Adrian Lyne e que marcou, junto com “Wall Street”, de Oliver Stone, o ápice do cinema “yuppie” da era Reagan.

A história envolvia um investidor de Wall Street (Mickey Rourke) e uma funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger), que começam um romance tórrido, quase todo passado num apartamento luxuoso.

Usando uma estética de comercial de TV, então rara, King e Lyne fizeram um longo videoclipe erótico, que se tornou uma grande influência estética. Não foram poucos os clipes musicais da época que copiaram seu visual “néon-chique”.

“Nove Semanas e Meia de Amor” não foi um grande sucesso em cinemas, mas – surpresa – arrebentou quando lançado em VHS. O filme capturou a libido de casais mundo afora. Quem não sonhou em passar um cubo de gelo no umbigo de Kim Basinger?

Zalman King começou a carreira como ator em séries de TV (“As Panteras”, “Gunsmoke”) e atuou em filmes B, como o cultuado “Blue Sunshine” (1978), sobre um tipo de LSD que provocava calvície e instintos homicidas - não necessariamente nessa ordem.

Mas foi no pornô “soft” que ele deixou sua marca. Em 1988, dirigiu “Um Toque de Sedução”, em que a espetacular Sherilyn Fenn (“Twin Peaks”) fugia da monotonia do noivado com um almofadinha e caía nos braços de um brutamontes sexy, funcionário de um parque de diversões.

Em 1990, King veio ao Brasil rodar “Orquídea Selvagem”, filme que causou comoção mundo afora por uma suposta cena de sexo real entre Mickey Rourke e Carré Otis. Por aqui, o filme será lembrado pela cena de um túnel que começa no Rio e termina, se me lembro bem, na Bahia.

Nos anos 90, King fez sucesso com “Diário Íntimo”, um drama erótico feito para a TV e estrelado por David Duchovny, de “Arquivo X”. King depois adaptou o filme em uma série, que durou até 1997.

Até em sua despedida, Zalman King apelou ao erotismo: foi-se, aos 69.

Escrito por André Barcinski às 09h17

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No caos com Rogéria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estava ontem num estúdio em Pinheiros, gravando um programa de TV apresentado pela mitológica Rogéria.

Tudo ia bem até o meio da tarde, quando um estrondo interrompeu a gravação. Parecia que o telhado estava desabando.

Fui à rua ver o que estava acontecendo. Pedaços de gelo do tamanho de bolas de gude caíam, amassando carros e quicando na calçada. Já vi granizo em São Paulo antes, mas nunca com aquela intensidade.

Em poucos minutos, a rua toda ficou coberta por uma camada de 20 cm de gelo. O gelo entupiu as calhas do prédio e a água começou a invadir o estúdio.

Enquanto o mundo caía lá fora e a equipe tentava impedir a inundação, Rogéria, completamente alheia ao caos, contava a uma assistente casos de sua primeira viagem ao Irã, nos anos 70.

Interrompemos a gravação. O carro que deveria buscar Rogéria e sua “entourage” – o “stylist” Ronald e o assistente Lucas – estava parado num engarrafamento monstruoso e não conseguiu chegar a Pinheiros. Tentamos vários pontos de táxi na região, sem sucesso.

A única solução para levá-los ao hotel, na Paulista (Rogéria mora no Rio), era o metrô. Rogéria, num bom humor tremendo, achou a idéia ótima: “Faz anos que não ando de metrô em São Paulo, vai ser uma aventura."

E foi mesmo. Primeiro, andar pelo Largo da Batata com Rogéria, de salto, lenço na cabeça e um óculos escuros Prada, sendo cumprimentada e chamada de “linda” e “gostosa” por várias pessoas. “Eu amo São Paulo, aqui eles sabem reconhecer os artistas."

No metrô Faria Lima, outro caos: a fila chegava quase à rua.

Sugeri procurar um restaurante para esperar o pandemônio passar. O bairro todo estava sem luz e os faróis de trânsito, apagados. Pinheiros era uma visão do inferno. Rogéria não se abalou: “Vamos andar a pé, assim eu conheço um pouco do bairro!”

Andamos uns oito quarteirões e paramos numa cantina. O lugar estava sem luz, mas o mâitre foi gentil e nos atendeu. Rogéria aprovou a comida: “Nem em Roma comi uma massa como a sua, dê os parabéns ao chef!”

Paramos na Rua dos Pinheiros para tentar um táxi. Os dois assistentes de Rogéria e eu ficamos pelo menos 20 minutos numa esquina, gritando para os carros que passavam. Ninguém parou.

Rogéria resolveu agir: “Meus amores, podem deixar que eu vou chamar um táxi. São Paulo não vai deixar Rogéria a pé!” E ela ficou na esquina, com o braço esticado, dizendo “Uhuuuu! Pelo amor de Deeeeeeeus, um táxi! Ajuuuudem!” Em três minutos, um táxi parou.

O carro subiu a Rebouças, que estava em obras. Quase fomos abalroados por um trator – juro, parecia uma miragem – que subia a avenida às sete e meia da noite. Levamos quase uma hora para chegar à Consolação.

Rogéria parecia estar se divertindo. Sentada no banco da frente, contava ao motorista histórias de suas primeiras visitas a São Paulo, nos anos 60. “A gente ia às boates ouvir bolero, coisa chique, não esses bate-estacas horríveis de hoje.”

Quando o táxi passou em frente à Nostromondo, famosa boate gay na Consolação, ela não se conteve: “Ah, a Nostro... Quantos shows não fiz lá? Quantos prêmios não ganhei ? Que saudades!

Levamos mais 40 minutos para andar três quarteirões na Paulista. E, aí, a paciência de Rogéria parecia estar chegando ao fim: “Gente, o que é isso? Nunca vi um engarrafamento desses, Deus me livre. Que horror.” O clima azedou.

Até que outro táxi emparelhou com o nosso, e o motorista a reconheceu: “Rogéria, você está linda, cada dia mais jovem...”

“Ah, meu amor, que bondade a sua! Você é que está lindo, com esse bigode chiquérrimo! Deus te abençoe, querido!”

E virou-se para nós, no banco de trás:

“Puta que pariu, eu amo essa cidade!”

Escrito por André Barcinski às 09h12

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“Murderball” revela um esporte surpreendente

Dia desses, a TV exibiu “Murderball”, um documentário que eu estupidamente perdi quando estreou, em 2005.

 

Na TV brasileira, o filme recebeu o desnecessário e pomposo subtítulo de “Paixão e Glória”.

 

O documentário trata de um esporte surpreendente, o rúgbi em cadeiras de rodas, conhecido nos Estados Unidos como “quad rugby”.

 

Disputado numa quadra de basquete, é uma modalidade violenta, em que os jogadores utilizam cadeiras especialmente preparadas para resistir a choques e acidentes. Um dos entrevistados compara as cadeiras de rodas aos carros do filme “Mad Max”. Não é exagero.

 

O filme acompanha a preparação das seleções norte-americana e canadense para as Paraolimpíadas de Atenas, em 2004.

 

A rivalidade entre os dois times é feroz, e só piorou depois que Joe Soares, um craque do “quad rugby” preterido como técnico dos EUA, resolve se vingar e assume o comando do time canadense.

 

O que mais gostei em “Murderball”, além das cenas de jogo e da preparação dos atletas, foi o tom nada condescendente e sentimental do filme.

 

Os personagens não são mostrados como heróis, mas como seres humanos comuns, que precisam superar suas limitações físicas para se destacar no esporte e para se adaptar à vida cotidiana.

 

Claro que todos os personagens têm histórias extraordinárias. Há o atleta que sofre um acidente de moto e se torna tetraplégico; há outro que perde a maior parte de suas funções motoras depois de uma doença. Mas nada disso é mostrado de maneira piegas.

 

Numa das cenas mais bonitas, a seleção norte-americana recebe a visita de uma turma de crianças. Com aquele jeito direto e desconcertante de que só as crianças são capazes, uma delas pergunta a um dos atletas, que não têm pernas e cujos braços terminam nos cotovelos, como ele consegue comer pizza com aqueles braços. O atleta dá uma risada e demonstra às crianças como ele faz para comer pizza.

É um momento muito simples e revelador, e que é, também, a tônica do filme: de que qualquer sociedade civilizada precisa tratar todas as pessoas e suas condições com naturalidade e clareza, sem esconder nada.

Escrito por André Barcinski às 09h36

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Garagem: 20 anos em duas horas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, às 21h, faremos uma edição especial de 20 anos do programa de rádio Garagem.

 

Para nossa alegria, os valorosos amigos da TV e Rádio UOL permitiram que fizéssemos o programa ao vivo. É só clicar aqui e curtir.

 

Com isso, os ouvintes poderão enviar suas respostas para a promoção, pelo e-mail programagaragem@uol.com.br ou pelo twitter @garagem. Não vou adiantar a pergunta, mas posso revelar que envolverá um grande artista brasileiro e virtual vencedor do Oscar.

 

Todos os grandes colaboradores do programa prometem estar lá: a espetacular Larissa, a destemida Verônica, os escravos Gabriel e Geraldo, nosso assessor Alexandre Cassolato, o eterno Fábio Nipoluso.

 

Velhos comparsas também prometeram aparecer. Não vou citar nomes para não gorar.

 

Teremos também a presença especialíssima de uma figura que marcou um dos momentos mais engraçados do programa. Mas essa é surpresa. Nem eu acreditei quando o Paulão me contou.

 

Aliás, o Paulão passou meses trabalhando com nosso DJ Djeff, o Phil Spector da Faria Lima – ok, “meses” é exagero, foram algumas horas – para escolher os melhores momentos dos 20 anos.

 

Teremos trechos das entrevistas com os dubladores dos “Três Patetas”, com o mítico JC e com o Mudhoney.

 

Vamos relembrar também a emocionante homenagem à discografia de Caetano, envolvendo um Twingo assassino, o triciclo do Trovão e a chapa quente do bar do seu Chicão.

Então é isso: esperamos todos vocês. Ouçam (e vejam também, já que a TV UOL vai transmitir) e participem. Até lá.

Escrito por André Barcinski às 09h36

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Os filmes da semana em 140 caracteres

O Oscar está chegando. Nas últimas semanas, estrearam vários filmes, e muitos leitores pediram comentários sobre eles.

 

Resolvi juntar alguns dos mais importantes num texto só e dedicar uma tuitada para cada um. Aproveite e bom fim de semana...

 

A Separação

De vez em quando surge um filme que prova que o cinema não morreu, está só esquecido em algum departamento de marketing por aí.

 

J.Edgar

Um roteiro ruim, Di Caprio mal escalado, e a mão pesada de Clint Eastwood fazem dessa cinebiografia de Hoover uma experiência entediante.

 

Os Descendentes

Comédia agridoce de Alexandre Payne, à Hal Ashby. Payne, Paul T. Anderson e Wes Anderson mostram que Hollywood não é só para adolescentes.

 

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Filho vs. mãe, sombrio pacas. Tilda Swinton magnífica, esnobada pelo Oscar. Assista, mas não marque nada depois; vai acabar com sua noite.

 

O Espião Que Sabia Demais

Boa adaptação de Le Carré, lento e elegante como o livro. Vale só por mostrar que Gary Oldman pode fazer outro papel que não um psicopata.

 

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

David Fincher e Trent Reznor dão um toque gótico ao thriller dark de Stieg Larsson. Não vai mudar o mundo, mas é divertido.

 

Cavalo de Guerra

Imagine: John Ford sofre um surto psicótico e faz um filme de guerra com o Rintintim. Só que com um cavalo.

 

As Aventuras de Tintim

Desde Avatar um filme em 3D não me dava tanta dor de cabeça. Escuro, desanimado e com um roteiro capenga, fica longe da beleza de Hergé.

Escrito por André Barcinski às 07h56

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Será que alguém vai lembrar de Ozzy por sua música?

Acaba de sair no Brasil o DVD “God Bless Ozzy Osbourne”, um documentário sobre a vida e obra do maior comedor de morcegos do rock.

Apesar de produzido pelo filho, Jack, o documentário não perdoa Ozzy, que é descrito como um pai ausente e irresponsável.

Numa das sequências mais tristes, seu filho Louis relata lembranças de infância, que invariavelmente envolviam o pai desmaiado no sofá, com o nariz cheio de cocaína e várias garrafas vazias espalhadas no chão.

Outra cena marcante – e bem mais divertida – mostra Ozzy deitado num sofá, assistindo aos clipes pavorosos que fez nos anos 80, quando tinha um cabelo igual ao da Ana Maria Braga e usava roupas de lantejoulas. Nem ele agüenta os clipes. Divertido também é ver Paul McCartney falando sobre Ozzy.

Mas o que mais gostei no filme foram as cenas de arquivo da época de Ozzy no Black Sabbath. Nos últimos anos, a fama de palhaço de Ozzy desviou a atenção de seu trabalho no Sabbath.

Se Ozzy tivesse morrido de overdose em 1976, seria celebrado hoje como um Jim Morrison do metal. Mas ele sobreviveu, virou uma caricatura de rockstar doidão e simpático e, com isso, eclipsou a importância de sua primeira banda.

Depois de ver o filme, peguei meus CDs do Sabbath e ouvi os quatro primeiros na sequência: “Black Sabbath” (1970), “Paranoid” ( 1970), “Master of Reality” (1971) e “Volume 4” (1972).

São discos que conheço de cor e que me acompanham desde a adolescência. Mas é bom passar um tempo longe deles e redescobri-los.

Está tudo lá: o heavy metal, o noise, o doom, os drones, o clima dark. Impossível imaginar tudo que veio depois - punk, pós-punk, gótico, hardcore, grunge - sem aqueles quatro discos.

“Volume 4”, então, é uma obra-prima absoluta. Um dos maiores discos cocainômanos da história (custou 65 mil dólares para produzir e outros 75 mil em pó para a banda), é uma radiografia dark do início dos anos 70. Cortesia de quatro doidões de Birmingham que mal sabiam escrever os próprios nomes.

Escrito por André Barcinski às 08h50

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Desafiando o bom senso: por que gosto dos estaduais

Tenho lido gente que manja tudo de futebol - meu amigo Eduardo Tirone, do “Lance”, por exemplo - criticando os campeonatos estaduais.

E sabe o quê? O Tirone tem razão.

Ninguém é capaz de dar um argumento objetivo para defender os estaduais. São campeonatos deficitários, com jogos péssimos e estádios vazios.

O problema é que, em futebol, nem sempre os argumentos são objetivos.

Minha razão para gostar dos estaduais é puramente subjetiva: uma mistura de saudade com o medo de ver o passado desaparecer.

Eu gosto de ir a estádios pequenos e ver jogos com três mil pessoas. Gosto de ver os jogadores de perto, batendo lateral quase encostados no alambrado. Gosto de ouvir o técnico gritando com os jogadores. Gosto de ver pais levando filhos, sem medo de torcidas organizadas.

Nunca morei na Moóca, mas me diverti demais nas três vezes em que fui à Rua Javari ver o Juventus. O mesmo aconteceu no estádio do Nacional.

Se estou em alguma cidade pequena e vejo um jogo anunciado, não perco por nada. Há alguns anos, estava em Extrema, Minas Gerais, e fui num jogo do time local contra o Uberlândia, pela série B do Mineiro. Foi fantástico. O Uberlândia ganhou com um gol de Viola. No intervalo, sortearam uma bicicleta.

Tenho memórias maravilhosas dos estaduais do Rio dos anos 80. Era muito divertido sair de casa cedo, pegar a estrada e passar o sábado passeando em Friburgo, antes de ver um joguinho do Friburguense. Fui muito a Olaria e Madureira. E perdi a conta de quantas vezes me despenquei até o Caio Martins só para ver o Botafogo, que nem meu time é.

Cresci na Ilha do Governador e não perdia um jogo da Portuguesa. Podia ser contra o Flu de Rivelino, o Flamengo de Zico, o Vasco do Dinamite ou o Botafogo do Dé.

Algumas das imagens mais engraçadas que vi no futebol aconteceram ali. Lembro de Rivelino pedindo pressa para o gandula na reposição de bola, só para ver o menino pular o muro e fugir com a redonda debaixo do braço. Deu até pra escutar o Riva xingando o moleque.

É verdade que essa graça tem sumido nos últimos anos. Os times menores estão numa lama danada, e a decisão de tirar os jogos dos estádios do interior – estou falando do campeonato carioca - só prejudicou ainda mais os times pequenos.

Acho que a verdadeira prova de cidadania seria ver a população ressuscitando seus campeonatos estaduais.

Eu adoraria ver os moradores de Madureira, Bangu ou Duque de Caxias lotando os estádios para ver seus times. Adoraria ver uma campanha de torcedores cariocas pela revitalização do estadual. Sonho em ver uma rodada dupla no Maracanã, com casa cheia.

Isso me daria bem mais orgulho que nossa Copa do Mundo e seu civismo fabricado.

Escrito por André Barcinski às 08h25

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“Sobre Meninos e Lobos”: uma entrevista com Dennis Lehane

Dennis Lehane, 56, é um dos escritores de romances policiais mais populares do mundo.

 

Três de seus livros - “Sobre Meninos e Lobos”, “Gone, Baby Gone” e “Paciente 67/Ilha do Medo” - foram adaptados para o cinema, respectivamente por Clint Eastwood, Ben Affleck e Martin Scorsese.

 

Lehane acaba de publicar no Brasil “Estrada Escura”, continuação de “Gone, Baby Gone” e sexto romance com o casal de investigadores Patrick Kenzie e Angela Gennaro.

 

Entrevistei Lehane para a Folha. A entrevista foi publicada sábado passado, na Ilustrada. Mas, como o papo foi bom, resolvi publicar a íntegra aqui.

 

Por que você resolveu voltar aos personagens Patrick Kenzie e Angela Gennaro e fazer uma continuação de “Gone Baby Gone”?

Eu tinha acabado de fazer um romance histórico muito trabalhoso (“The Given Day”), que me consumiu anos de pesquisa, e estava louco para voltar a escrever algo contemporâneo, passado hoje em dia.  Alguns de meus livros são passados num período indefinido, sem referências temporais.   “Sobre Meninos e Lobos”, por exemplo, poderia ser passado tanto em 1970 quanto em 2000. Com “Estrada Escura”, eu queria contar uma história contemporânea. Sobre os personagens Kenzie e Genaro, eu os adoro, simples assim.

 

Sei que você fez uma pesquisa gigante para “The Given Day”. Mas e para seus livros policiais, como “Estrada Escura”? Há muita pesquisa sobre procedimentos investigativos, por exemplo?

Não faço pesquisa antes de escrever o livro. Assim que termino de escrever, confirmo informações com algum especialista, para não escrever nenhuma bobagem. Também não quero que minhas histórias tenham o nível de detalhamento de um “CSI”, por exemplo, acho isso um exagero (risos).

 

Podemos falar sobre suas influências? Você sempre cita Richard Price como uma de suas grandes inspirações...

Sem dúvida. Como autor de histórias urbanas, Price é um modelo a ser seguido.

 

Você escreveu uma bonita introdução para o relançamento de “The Friends of Eddie Coyle” (romance policial clássico de George V. Higgins, lançado originalmente em 1970).

Sim. É um livro seminal, que marcou profundamente a literatura policial. Eu não fui influenciado diretamente por Higgins, este foi o único livro dele que li, mas sou obcecado por Elmore Leonard, que considerava o livro de Higgins o maior romance policial já escrito. Então, acho que, mesmo indiretamente, acabei influenciado por Higgins.

 

Se você tivesse de escolher seus escritores policiais prediletos, quais seriam?

Acho que Elmore Leonard, James Ellroy e James Lee Burke foram os autores que elevaram o gênero policial a um nível mais alto.

 

E autores contemporâneos? Você é um grande leitor de romances policiais?

Para falar a verdade, não. Tenho um amigo que é carpinteiro e ele costuma me dizer: “Passo o dia todo consertando a casa dos outros. Quando chego em casa, não quero ficar consertando a minha.” Mas gosto de Daniel Woodrell (autor do livro que inspirou o filme “Inverno da Alma”) e gostei muito de “Galveston” (livro de estréia do norte-americano Nic Pizzolatto).

 

Podemos falar sobre seus filmes? Você se considera sortudo por ter tido três boas experiências com adaptações de seus filmes para o cinema?

Com certeza. Tive a sorte de ter dois diretores consagrados (Clint Eastwood e Martin Scorsese) adaptando minhas histórias, e de ter um novato (Ben Affleck), mas que se revelou incrivelmente talentoso.

 

Você trabalhou junto com os diretores?

Eu fui consultor nos três filmes, mas não quis me envolver muito. A última coisa que um diretor precisa num set de filmagem é um escritor dando pitaco. O sujeito que serve o cafezinho é mais importante num set que um escritor, que só fica andando por todos os cantos sem ter o que fazer.

 

E seu trabalho na TV, como anda? (Lehane escreveu alguns episódios da série “The Wire”).

Muito bem. Estou trabalhando em uma adaptação do livro “The Fence”, de Dick Lehr (sobre um caso real envolvendo racismo e corrupção policial em Boston) para a HBO. Tenho recusado muitas ofertas, o que é sempre um bom sinal.

 

Você acha que a TV, hoje, tem um nível de roteiros melhor que o do cinema?

Sem dúvida. Na TV, autores ainda são tratados como deuses, enquanto no cinema, tudo é meio que decidido por comitê. Não digo que todos os programas de TV são bem escritos, tem muita porcaria por aí. Mas se você tem a sorte de trabalhar com as melhores produtoras – HBO, Showtime, FX, AMC – então vai tratar sempre com quem manda e não com um comitê de 40 engravatados do departamento de marketing.

 

Que programas você destacaria na TV?

Gosto de “Walking Dead”, “Mad Men”, “Breaking Bad”, e de um novo, “Homeland”, que é incrível.

 

Você tem algum projeto que sempre sonhou em fazer, mas que não conseguiu até agora?

Acabei de terminar o livro que sempre sonhei em fazer. Chama-se “Live By Night. É uma história de gângster passada durante a Lei Seca nos Estados Unidos e que trata do contrabando de rum cubano para a América. Muita gente acha que toda a bebida contrabandeada de Cuba chegava por Miami, mas não era verdade, boa parte chegava por Tampa. Meu livro trata da conexão mafiosa entre Boston, Tampa e Havana. Sempre sonhei em escrever uma história de gângster, mas decidi que só iria escrevê-la quando achasse um ângulo que não havia sido explorado. E a “Rota do Rum”, como ficou conhecido esse episódio, é esse ângulo.

 

Para finalizar, preciso perguntar sobre sua participação na FLIP, em 2007. O que você lembra do evento?

Achei sensacional, nunca poderia imaginar que tanta gente apareceria para falar sobre livros. E fiquei surpreso com o conhecimento que muitas pessoas tinham sobre a minha obra. O único problema, agora, é que minha mulher diz que não vai me deixar mais viajar sozinho para o Brasil. Muita mulher bonita por lá. Ela viu fotos que fiz das filas de autógrafos e me proibiu de ir sozinho.

Escrito por André Barcinski às 08h44

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O Rio e os bueiros: agora, só explode quem quiser

Parabéns ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, por ter solucionado o problema dos bueiros explosivos, que tanto sofrimento vinha causando à população carioca.

Semana passada, Paes sancionou uma lei que “proíbe a utilização das calçadas onde existam tampas de empresas que prestem serviços como gás, luz, água, esgoto e TV a cabo”. Fica proibido estacionar o carro ou colocar mesas e cadeiras em cima de um bueiro.

Genial. Agora, só explode quem quiser. Ou quem der bobeira.

Se você estiver tomando um chope na calçada com os amigos e um bueiro te mandar pelos ares, a culpa é sua. Quem mandou sentar em cima do buraco?

Ninguém mais tem desculpa para se machucar em um dos 289 bueiros – número oficial – com grande risco de explodir na Cidade Maravilhosa.

Claro que ninguém inventa uma lei ridícula como essa à toa. O objetivo é claro: blindar o governo contra possíveis ações judiciais. Se um bueiro explodir e machucar alguém, a prefeitura pode sempre argumentar que o cidadão estava burlando a lei.

É assim que nossas prefeituras funcionam: quando não conseguem resolver o problema, inventam uma lei para penalizar o cidadão.

É a mesma lógica da de lei que proíbe cerveja nos arredores do Engenhão, ou da sugestão de Kassab, felizmente rejeitada, de proibir motos de circular com uma pessoa na garupa, para diminuir os assaltos praticados por duplas de motoqueiros (recebi tantos e-mails dizendo que Kassab não apoiava isso, que resolvi postar este link para tirar qualquer dúvida).

Outro exemplo da rapidez com que nossas prefeituras se blindam contra possíveis problemas aconteceu no caso dos prédios que desabaram no Rio. Um ou dois dias depois da tragédia, já surgiram notícias de que uma obra “ilegal”, sem alvará, tinha sido realizada em um dos prédios.

Ótimo. Mas alguém sabe quanto tempo a prefeitura demora para emitir um alvará de obra?

Não sei como funciona no Rio, mas, em São Paulo, você precisa de um alvará para fazer qualquer obra, mesmo uma simples pintura na sua casa. Quem me disse foi um alto funcionário da Secretaria da Habitação.

Se me lembro bem, o prazo pedido para emitir um alvará de obra em São Paulo é de 120 dias. Mas sei de casos em que demorou dois anos.

Responda com sinceridade: você vai esperar dois anos para pintar a casa ou reparar um buraco no telhado? Vai pedir um alvará para isso? Claro que não.

Então, conforme-se: sua obra é ilegal.

E, assim, as prefeituras vão tocando seus mandatos, criando leis tão impossíveis de cumprir que jogam toda a população na ilegalidade. É bem mais cômodo que fiscalizar todo mundo, certo?

P.S.: Pouco depois de esse texto ser publicado, um bueiro explodiu na zona portuária do Rio, matando uma pessoa e ferindo outras duas. Leia aqui.

Escrito por André Barcinski às 08h34

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“Millenium”: os crimes que vêm da Escandinávia

 

 

 

 

 

 

 

Estréia hoje “Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, filme de David Fincher (“A Rede Social”, “Clube da Luta”) adaptado do romance policial do sueco Stieg Larsson.

O filme tem uma história envolvente e um clima meio dark, características do cinema de David Fincher. Caso raro de filme de ação moderno que não parece feito só para adolescentes.

Para você que viveu em Marte nos últimos anos, “Millenium” é uma trilogia de histórias policiais que vendeu cerca de 60 milhões de livros no mundo todo.

Li os três livros. “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” é o melhor. Nele, o jornalista Mikael Blomkvist investiga o sumiço de uma menina, ocorrido mais de 40 anos antes na mansão de uma família de industriais.

Ele recebe ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker de visual gótico e passado misterioso.

Os outros dois livros da série, “A Menina Que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”, são bem mais fracos. E isso porque Salander se transforma numa espécie de heroína com poderes quase sobrenaturais.

Em certo ponto da trama, ela se pega enfrentando um homem gigante e imune à dor, é baleada várias vezes e enterrada viva. Fora que seus poderes de hacker atingem proporções divinas. Com duas tecladas no computador, ela é capaz de mudar o rumo da humanidade.

Esse tipo de romance policial, com personagens pouco realistas e dotados de habilidades quase extraterrenas, é muito popular hoje.

Prefiro as histórias mais realistas, que relatam procedimentos policiais e investigações. Gosto de personagens de carne e osso. Gosto dos livros de Jim Thompson, Ed McBain, James Ellroy, George V. Hiiggins, Joseph Wambaugh, Richard Price.

O sucesso de “Millenium” ajudou a divulgar a literatura policial escandinava. Nomes como o norueguês Jo Nesbo viraram uma febre. Sem contar o veterano sueco Henning Mankell, autor das histórias do Inspetor Wallander.

Li dois livros de Nesbo. Achei ainda mais inverossímeis e exagerados que os de Larsson.

Um deles, “The Snowman”, tem um criminoso que parece vilão do Harry Potter. Ele chega a colocar uma de suas vítimas com uma corda no pescoço e sustentada em cima de um boneco de gelo que, à medida que derrete, vai enforcando o coitado.

Os livros de Nesbo, assim como os de Larsson, parecem ter sido pensados com o objetivo de vender a história para o cinema.

O curioso é que a literatura policial escandinava nem sempre foi assim. Além de ter uma história antiga e rica, foi marcada por autores que sabiam criar personagens e situações credíveis.

Nos anos 70, foram lançados no Brasil alguns livros do casal sueco Maj Sjöwall e Per Wahlöö, como os ótimos “Roseanna” e “Massacre em Estocolmo”. Se achar em algum sebo, pode comprar que valem a pena.

P.S.: Cada um tem o indie estatal que merece

A dica é do meu amigo Álvaro Pereira Jr.: domingo, às 14h do Brasil, a rádio BBC6 transmite o programa de Jarvis Cocker, do Pulp, em que ele entrevistará Leonard Cohen (ouça aqui).

Aliás, o disco novo de Cohen, “Old Ideas”, pode ser ouvido na íntegra, no site da NPR (National Public Radio), emissora pública norte-americana.

BBC e NPR: dois indies estatais que eu não me importaria de pagar imposto para sustentar.

Escrito por André Barcinski às 08h49

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Bom dia, Aedes aegytpi; pode entrar que a casa é sua...

Poucas coisas me irritam tanto quanto hipocrisia. Especialmente hipocrisia estatal, aquela em que governo exige de nós atitudes que ele próprio não toma.

A Lei Seca, por exemplo: ninguém pode ser contra uma lei que diminui o número de acidentes de carro, certo?

Então por que o governo de São Paulo não faz a sua parte e estende o horário de funcionamento do metrô?

Que sentido faz ter uma cidade com uma vida noturna tão intensa e não ter metrô de madrugada? Será que os acidentes não cairiam se a população tivesse a opção de sair à noite de metrô?

O combate à dengue é outro exemplo de hipocrisia.

O Governo do Rio anunciou que vai multar donos de casas e terrenos onde forem encontrados focos do Aedes aegypti. Beleza.

Mas e os terrenos públicos que são criadouros de mosquito? Quem multa o governo?

Eu moro em Paraty, no Estado do Rio de Janeiro. Com as chuvas fortes que caem desde dezembro e as crateras que existem no bairro, a rua mais parece um charco. Tem tanta água que o lugar virou até bebedouro de cavalos.

No fim da tarde, começa uma revoada de mosquitos. São insetos de todos os tipos, cores e tamanhos. Alguns parecem uns pterodáctilos. Um verdadeiro espetáculo da natureza.

Minha rua não é asfaltada. E nem será num futuro próximo, por uma única razão: meu vizinho é inimigo político do prefeito.

Isso não é segredo por aqui. Da última vez que fui reclamar na Secretaria de Obras, um funcionário disse: “Ah, meu amigo, aquela rua tem um problema sério...”

Só para humilhar os moradores, a Prefeitura pavimentou as ruas do bairro. Mas o asfalto só chega até a esquina da nossa rua.

Além dos mosquitos, outros seres costumam visitar nosso bairro, embora com menos freqüência que os insetos: os fiscais da Vigilância de Saúde.

Eles vêm multar os moradores que deixam poças d’água em seus quintais (curiosamente, eles são capazes de achar qualquer pocinha no jardim de um morador, mas nunca perceberam o Mar Morto que existe em nossa rua).

Da última vez que estiveram por aqui, pedi a um dos fiscais para dar uma olhada no pântano e tentar achar algum Aedes aegypti. O sujeito me tranquilizou:

- Aqui não tem. O Aedes é fotofóbico e não prolifera em áreas ensolaradas.

- E os outros cinco milhões de mosquitos que vivem aqui?

- Ah, aí já não é da nossa alçada!

Escrito por André Barcinski às 08h58

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Oscar: o fundo do poço?

Será essa a pior edição do Oscar?

A safra de filmes hollywoodianos de 2011 foi tão ruim que a Academia não conseguiu nem selecionar o máximo de dez candidatos para o prêmio de melhor filme.

Escolheram só nove, incluindo uma das coisas mais ridículas já perpetradas em celulóide, “Cavalo de Guerra”, e o dramalhão “Extremely Loud and Incredibly Close”, que foi malhado pela crítica.

O ano foi tão ruim que “Kung Fu Panda 2” foi indicado ao prêmio de melhor animação. Vou repetir bem devagar, pra ninguém achar que me enganei: Kung.. Fu.. Panda.. Parte dois... foi indicado... a um... Oscar. Um OSCAR, capisce?

Achei que nunca conseguiriam superar 1995, quando a disputa ficou entre “Coração Valente”, “Apollo 13”, “Babe, o Porquinho Atrapalhado”, “O Carteiro e o Poeta” e “Razão e Sensibilidade”.

Ou 1998, com “Shakespeare Apaixonado”, “A Vida é Bela”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Elizabeth” e “Além da Linha Vermelha”.

E que tal 2008, com “Quem Quer ser Um Milionário?”, “Milk – A Voz da Igualdade”, “Frost/Nixon”, “O Leitor” e “Benjamin Button”? De lascar.

Ainda não vi “O Artista” e “Hugo”, então não quero opinar sobre a safra 2011. Mas não estou lá muito otimista.

Para piorar, conseguiram esnobar Albert Brooks, que está fantástico no papel do mafioso em “Drive”, e Michael Fassbender, uma revelação como o viciado em sexo de “Shame”.  E trouxeram de volta Billy Crystal para apresentar o prêmio. Socorro.

Não é de hoje que o cinema americano está em crise. Só faz continuações, filmes em 3D e adaptações de quadrinhos. Se o Oscar, que na teoria é o melhor de Hollywood, está nessa lama, imagine o cinema mais comercial?

Escrito por André Barcinski às 08h33

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Dez filmes sobre pessoas erradas nos lugares errados

Estava zapeando a TV outro dia e achei o ótimo “Implacável Perseguição”, de Jonathan Mostow, um daqueles filmes sobre pessoas normais às voltas com situações extremas.

 

É um velho clichê do cinema de horror e suspense: um personagem civilizado e pacífico que precisa recorrer aos instintos mais primitivos e bestiais para enfrentar caipiras psicóticos, traficantes sádicos ou assassinos seriais.

 

Separei dez filmes do gênero. E não incluí nenhum de horror, tipo “Quadrilha de Sádicos” ou “O Massacre da Serra Elétrica”, porque seria chover no molhado. Afinal, quase todos os filmes de terror lidam com pessoas normais às voltas com a anormalidade, não?

 

 

Faca Na Água - Roman Polanski, 1962

Um casal viaja por uma estrada e dá carona para um homem misterioso. O casal convida o homem para velejar. Ele aceita. Partindo dessa trama simples, Polanski, em seu primeiro longa, cria um “thriller” minimalista, cheio de tensão sexual e violência implícita.

 

Pequeno Grande Homem (Little Big Man) - Arthur Penn, 1970

Difícil achar um filme americano dos anos 70 que não falasse, direta ou indiretamente, sobre o Vietnã. Nesse filme, um homem de 120 anos (Dustin Hoffman) conta a um historiador sobre sua vida, em especial os anos que passou como prisioneiro de uma tribo Cheyenne. Mais uma analogia sobre imperialismo, preconceito e o conflito de civilizações, tão típica do cinema americano daquela época.

 

Um Homem Chamado Cavalo (A Man Called Horse) – Elliott Silverstein, 1970

Um nobre britânico (Richard Harris) é capturado por uma tribo indígena e, pouco a pouco, deixa de lado os modos aristocráticos para se tornar um guerreiro da tribo. O filme foi visto, na época, como uma analogia à Guerra do Vietnã, e é um dos melhores papéis de Richard Harris no cinema.

 

Walkabout – Nicholas Roeg, 1971

Já escrevi três ou quarto vezes sobre esse filme, um dos meus favoritos. Um homem sai de seu apartamento confortável na cidade grande e, sem razão aparente, leva os dois filhos para o meio do deserto e tanta matá-los. As crianças sobrevivem e são resgatadas por um menino aborígene. Inesquecível.

 

Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs) - Sam Peckinpah, 1971

Dustin Hoffman faz um professor de matemática que se recolhe a uma vila isolada na Cornualha com a mulher, uma coisa de louco interpretada por Susan George, e acaba atraindo a atenção indesejada de um bando de personagens macabros da vila. Peckinpah explorando seu tema favorito: a linha entre a civilidade e a barbárie.

 

Amargo Pesadelo (Deliverance) – John Boorman, 1972

Quatro executivos (incluindo Burt Reynolds e John Voight) decidem passar um fim de semana andando de canoa em uma floresta remota na Georgia, mas acabam entrando em conflito com sádicos caipiras locais. Mais um filme sombrio sobre o contraste da civilidade e da violência.

 

O Silêncio do Lago (Spoorloos) - George Sluizer, 1988

Numa viagem de carro pelo interior da França, um casal para num posto de gasolina. A mulher some misteriosamente. O marido passa os anos seguintes tentando encontrá-la. Nunca vou esquecer a primeira vez que vi esse filme, numa sessão de meia-noite no Estação Botafogo. O diretor Sluizer depois ganhou uma boa grana para estragar seu filme com uma versão americana, estrelando Kiefer Sutherland e Sandra Bullock. 

 

Busca Frenética (Frantic) – Roman Polanski, 1988

Mais um de Polanski. Harrison Ford faz um médico que vai a Paris para um congresso com a esposa. A mulher some, e ele tem de descobrir o que aconteceu. A primeira metade do filme é tensa e misteriosa. A segunda metade é um besteirol indigno de Polanski, mas o começo é bom demais.

 

Implacável Perseguição (Breakdown) - Jonathan Mostow, 1997

O casal Kurt Russell e Kathleen Quinlan cruza os Estados Unidos de carro. Quando o automóvel quebra, no meiodo deserto, surge um misterioso caminhoneiro (o ótimo J. T. Walsh) oferecendo ajuda. Você aceitaria?

 

Wolf Creek – Greg MacLean, 2005

Grupo de turistas encontra um caipira simpático no meio do deserto australiano. Mas o moço se revela menos amigável do que aparenta. O tema é batido, mas o filme é apavorante. Tarantino o homenageou em “Death Proof”, quando, durante uma perseguição, um carro destrói a placa de um drive-in que exibe “Wolf Creek”.

Escrito por André Barcinski às 08h55

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PERFIL

André Barcinski André Barcinski, é crítico da Folha, diretor e produtor dos programas "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" e "Preliminares", no Canal Brasil, e co-apresentador do programa "Garagem", na Rádio UOL.

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